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quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

Moon





Dizendo como nada aquilo que fazia, o mais certo seria que provava whiskeys em Lisboa, isso não lhe tirava ninguém.
Faltava-lhe uma mão para por à volta de uma mulher prometida,
A pertença. Lar-edredão.
Talvez noites de íntima companhia,
lado feio na boca de preconceituosos, no entanto
real.
Palavras de e para algúém,
ausência de copo-reflexo,
música de dias bons,
música.
Tanto lhe faltava,
não a cevada,
uma cintura,
mas nunca a cevada,
nunca o cotovelo,
nunca a base,
nunca os balcões,
uma cintura.

terça-feira, 15 de outubro de 2013

...a garrafa vazia de manuel maria...

No fundo da minha garrafa está o vidro baço e molhado. gritos de infante, dentes a nascer. estão seres quebradiços, cera mal seca, dobrados sobre si, num grito que os joelhos abafam, lágrimas secas pela noite. está um futuro de crise. e por isso a bebo. para que lá esteja tudo isto, e não em mim.
No fundo da minha garrafa está outra. até à última moeda do bolso ou pormenor de consciência. até os casais felizes partilharem somente o silêncio. e a derradeira uva rebentar, suculenta.
Pano de fundo, a música ironicamente dedilhada em sol, quadros - antes cópias - bom gosto que se compra em cadeia, a vida em comunidade, dois dedos de conversa e a ficção do anonimato deitado em pétalas. de flores. de qualquer coisa bela.
E o meu ar morto, em contraste, rápido em movimentos cíclicos: pega, bebe, pousa, fuma. quatro passos. um fim.
o dia acaba.
 escritos rasgados. aerofagia.

segunda-feira, 30 de setembro de 2013

Texto

Colecciono momentos e objectos como se me fossem indispensáveis para respirar. Sobretudo momentos. Guardo-os na cabeça, à espera que a vida mos coma. E quero-os assim, não registados, desarrumados, surpreendentes numa noite em que algo os despoleta. Um cérebro desarrumado sabe como dias a café. Sem comer de manhã, dedos ansiosos e ar cortante. É bom, é tudo para mim, essa ideia de que eles sempre voltam. E de que se podem confundir com sonhos, mentindo suavemente à realidade. E se não voltarem, também não sei que existem. Poupa-me um suspiro - talvez uma lágrima - sobre um papel amarrotado.
Recordo-me de um fragmento de imagem. Devia ter uns três anos, e olho para o meu pai, sentado à cabeceira da mesa, ar confiante, cotovelo equilibrado por razões de etiqueta. E um sorriso verdadeiro na cara. Rugas breves, de feitio. Esta figura surge repetitivamente na minha cabeça, como se a maldissesse ou quisesse guardá-la muito perto.
Não sei o que a provoca, sei que é de ferro. Cada vez que penso nela, a nostalgia invade, tecido macio. E provoca uma torrente de outros pedaços que me percorrem, até ao embrião. De pessoas que não vejo, situações caricatas, medo, vergonha, tudo, tudo passa. Ao ponto de não saber se me fez bem esta viagem. Se lembrar é melhor do que estar sempre aqui e agora, realidade gasta, mas palpável, inegável, existente.
Não sei. Mas não as quero perder.

segunda-feira, 23 de setembro de 2013

So, you are into bukowski? That's so cool! I write a bit myself, but i wouldn't dream of doing what he does...

Este
é o meu pequeno poema
sobre como não seguir em frente.

Sobre como apagar
pessoas
é diferente
de apagar
cigarros.

Ou talvez
seja igual
porque um cinzeiro
fica sempre
marcado
depois do uso
e a beata tem
aquele algodão do fim
amarelado
alaranjado
nicotinado
tom
de quem usou e deitou fora
e não tocou mais
até estarem tantas
e tantas
que uns se apagam por cima dos outros
na loucura das cinzas.



quinta-feira, 9 de maio de 2013

mais sem graça que uma top model magrela na passarela.

Gostava de começar um romance com uma personagem normal, nada a acontecer, um pouco como as vidas pouco picantes da generalidade das pessoas com a corda ao pescoço.
Uma personagem que bata nas teclas por bater e as leva consigo na viagem de autocarro por não ter mais nada que fazer. E que repare nos olhares esquisitos sem que ninguém o veja, e nada seja especial nele, a metrópole como sempre esteve. Sem carisma, sem potássio, apenas presente de corpo e não de alma, como todos os figurantes. Que as pessoas o leiam sem interesse, como um jornal gratuito, para passar o tempo no subsolo antes de chegarem a outro sítio em que o pó é igual ao do mês passado, aquelas que não estão a ver o pó a crescer em casa, num desespero de causa justificado neste país. Uma vida dentro de uma vida, em que ele próprio faz tudo isto.
E, porque não, às vezes usar uma figura de estilo, improvisar a cozinhar, pequenas coisas que se fingem e dão piada aos segundos nos cigarros que queimam.
Não sei...eu tinha um plano. Em que aos 16 me apaixonava e sofria com isso um ano depois quando tudo não desse certo, clássico no tremor da adolescência. Fazia tudo à primeira e viveria uma vida simples, com tudo no sítio mas sem extravagâncias, entretanto encontrava alguém adequado, mas nada perfeito, pensaria sempre na pessoa desse tempo, e arrependia-me mais tarde porque nunca é tarde apesar de ser sempre, aperceber-me-ia.

Era nisso que pensava quando vi um placard a anunciar que se podia anunciar ali.
E esta personagem ganhou forma na minha cabeça, uma personagem que anunciava um simples "Precisa de falar? 21*******. Das 19 às 20"
Por entre os telefonemas de gozo, falsos desesperos que troçam de quem precisa, a minha voz ecoava através de uma linha, acalmando uns, rindo ou chorando com tantos outros, a filha fazia anos hoje.
A minha vida era a noz-moscada dos outros.
A minha personagem vivia de outros.
Era feliz num pequeno conto de fadas, em encontros ocasionais com suicidas, em roupas diferentes.
Saltando de planeta em planeta, um turista na vida de quem queria.
Durante esse mês.

quarta-feira, 10 de abril de 2013

Dud

Todos os dias espero por algo de louco em mim, algo que me pare e me assuma por dentro, até nada restar.
Por muito que tenha procurado, através da merda que passei e dos momentos que me tiraram sentimentos do corpo, ainda não encontrei essa faceta específica. O demónio que todos temos, em mim é racional. Ainda que mais nada o seja. E até estou um bocado deprimido com isso. Ter em mim essa desconexão completa do mundo real abafaria os meus sentidos em tempos de culpa e dor. Bater com a cabeça até sangrar, esmurrar o mundo numa parede, contrariar a humanidade num momento de animal é preciso, é, contraditoriamente, humano e natural. Não o ter faz-me sentir mais só do que alguma vez algo fez. Menos humano e mais monstro. Feito de gelo.
Já o vi, nas caras das outras pessoas. É de fogo. É assustador. É a fúria num suspiro, uma surdez irrecuperável e uma cegueira focada em magoar, em destruir o que quer que esteja à frente, por palavras ou gestos. Gestos, sobretudo. Não o ter é não libertar o coágulo que me vai matar mais cedo. Deixá-lo entrar no meu cérebro, nas paredes do meu coração. Detonar uma bomba.
Quando reparo que se aproxima, ele enterra-se e nunca mais o vejo. Cada vez que volta é mais pequeno, menos nocivo. Suspeito que, a dada altura, virá vazio. Nessa altura, já não serei humano. A vida terá passado, e não se poderá chamar vida. Ficarei, para sempre, o cientista que observa os resultados nos ratos de laboratório, sem pensar na perda. Com um objectivo maior. Ou, pelo menos, será essa a justificação que encontrarei para um dia em que eu deixo de ser eu e passo a ser o eu que me era destinado. Um eu que perdeu a ligação a tudo o que é natural. Um ser diferente, pior, do que todos os outros. Sem motivos, motivações, emoções. Sem que nada reste.
Um Buda decaído.
Um anti-homem.
Um anti-animal.
Um anti-natureza.
Um anti.