Mostrar mensagens com a etiqueta the dude. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta the dude. Mostrar todas as mensagens

sexta-feira, 7 de março de 2014

Oralizante

"Estávamos entre dois copos, e eu não te conhecia, só achei que tinha de ser sorte estares sozinha. Pá, lá comecei a falar, não não me lembro muito bem do quê, sei que chegou a altura de pedir mais duas. Paguei, como o meu irmão me ensinou. Ele disse-me que era bom começar assim, e que os homens andavam sempre do lado da estrada. Foi mais por hábito do que por outra coisa, estás a ver? Então agradeceste-me - não rias!- e lembraste-me que um puto não podia pagar uma bebida tão à descarada. Tu ainda não sabias, mas eu estava mesmo a prever isso quando te respondi, e deve ter corrido bem, porque lá foste falando comigo, apesar de todas as dicas que já deves ter ouvido nos bares. Eh pá, e tu sais-te com a conversa das Ficções do Borges e a partir daí não podia parar mesmo que quisesse."

"Ah, então foi assim que acabámos aqui. Pois, percebo. Olha, foi muito bom, mas se calhar ficamos por aqui. Já são umas três, ou assim, e amanhã trabalho..."

"A gente vê-se pelo bar então."

"É isso. Assim não conversamos logo tudo."

"Foi giro. Talvez estar com um puto não seja assim tão mau, de vez em quando."

"(risos) Talvez não, talvez não..."

"Vá, beijinho"

"Vá..."

segunda-feira, 14 de outubro de 2013

Doce

Folheando albuns, ver-te-ia, doce.
Sardas de canela na tua cara, um sorriso especial,
verões analógicos que suspiro não poder ter.

E sempre em nós a calma do mundo.
Coisas que passaram por já terem deixado de ser.
Mas duetos inesquecíveis,
tangos efervescentes
tu em mim,
eu em ti,
desvanecidos
copo d'água.
Meio-cheio.
Quase cheio.

Transbordou.

segunda-feira, 23 de setembro de 2013

So, you are into bukowski? That's so cool! I write a bit myself, but i wouldn't dream of doing what he does...

Este
é o meu pequeno poema
sobre como não seguir em frente.

Sobre como apagar
pessoas
é diferente
de apagar
cigarros.

Ou talvez
seja igual
porque um cinzeiro
fica sempre
marcado
depois do uso
e a beata tem
aquele algodão do fim
amarelado
alaranjado
nicotinado
tom
de quem usou e deitou fora
e não tocou mais
até estarem tantas
e tantas
que uns se apagam por cima dos outros
na loucura das cinzas.



quinta-feira, 19 de setembro de 2013

Stockholm Syndrom

 
AMSTERDAM
 
 
 
 
 
Já alguma vez repararam no Homem que espera ao longo do paredão da praia dos Pescadores, na Ericeira?
 
Certa noite, no regresso a casa passei por lá e sem qualquer razão pus-me a olhar ao longo da costa, até que vi, recortada, uma figura sentada, de mãos ao colo, pés baloiçantes, só, ali, à espera de alguma coisa.
Não sei o que é, não sei mesmo, mas tem de ser alguma coisa. Ninguém arrisca a erosão lenta e fria sem razão.
Comecei a pensar numa infinidade de coisas, tudo poderia ser. Apresento-vos a melhor ideia.
O Homem era cativo do mar. Tal como uma vítima de rapto, sofreu às suas mãos, a sopa estava no balcão, a água numa tigela rente à porta. O frio fazia-o adoptar uma posição fetal.
Mas havia alguma coisa de errado. Não havia ódio. Passaram meses, anos talvez, mas nada crescia nele, não agora. Antes sim.
O mundo era aquilo. Duas palavras por dia, utilização imprópria e a luz por um buraco na parede.
Escuro.
Dias em noites, vice-versa.
O único traço de humanidade estava na visita do captor.
Nada mais restava.
Só toques no braço,
E momentos a partilhar.


segunda-feira, 29 de julho de 2013

#216

É quase crime não ver os dias como músicas do Tom Waits, com o mundo ao alcance de uma chave partida e a um bourbon do buraco onde o Hank descansa.
Viver ao máximo, pelo mínimo possível, brutalizar cada olhar em fuga entre putas e insultos curtos, perceber o som da decadência num cinzeiro sujo - trôpego na maior dignidade, dicas de engate em onomatopeias para levar para a cama uma mulher dois sóis à frente do seu melhor momento com uma corda ao pescoço e matrículas por pagar.

quarta-feira, 10 de abril de 2013

Dud

Todos os dias espero por algo de louco em mim, algo que me pare e me assuma por dentro, até nada restar.
Por muito que tenha procurado, através da merda que passei e dos momentos que me tiraram sentimentos do corpo, ainda não encontrei essa faceta específica. O demónio que todos temos, em mim é racional. Ainda que mais nada o seja. E até estou um bocado deprimido com isso. Ter em mim essa desconexão completa do mundo real abafaria os meus sentidos em tempos de culpa e dor. Bater com a cabeça até sangrar, esmurrar o mundo numa parede, contrariar a humanidade num momento de animal é preciso, é, contraditoriamente, humano e natural. Não o ter faz-me sentir mais só do que alguma vez algo fez. Menos humano e mais monstro. Feito de gelo.
Já o vi, nas caras das outras pessoas. É de fogo. É assustador. É a fúria num suspiro, uma surdez irrecuperável e uma cegueira focada em magoar, em destruir o que quer que esteja à frente, por palavras ou gestos. Gestos, sobretudo. Não o ter é não libertar o coágulo que me vai matar mais cedo. Deixá-lo entrar no meu cérebro, nas paredes do meu coração. Detonar uma bomba.
Quando reparo que se aproxima, ele enterra-se e nunca mais o vejo. Cada vez que volta é mais pequeno, menos nocivo. Suspeito que, a dada altura, virá vazio. Nessa altura, já não serei humano. A vida terá passado, e não se poderá chamar vida. Ficarei, para sempre, o cientista que observa os resultados nos ratos de laboratório, sem pensar na perda. Com um objectivo maior. Ou, pelo menos, será essa a justificação que encontrarei para um dia em que eu deixo de ser eu e passo a ser o eu que me era destinado. Um eu que perdeu a ligação a tudo o que é natural. Um ser diferente, pior, do que todos os outros. Sem motivos, motivações, emoções. Sem que nada reste.
Um Buda decaído.
Um anti-homem.
Um anti-animal.
Um anti-natureza.
Um anti.

segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

lone star

Continuas evadida.
No fim do mundo, continuas evadida, continuas precoce, continuas calma.
Eu? Eu vou respirando. De vez em quando ainda olho para aí, está tudo na mesma.
Ainda pego no caderno. Ainda imagino umas linhas, um caminho.
Um suporte de vida.
É melhor ficares aí.
O teu pedestal é seguro. É indolor. É o tipo bom de insípido.
Nenhum monstro se esconde debaixo da tua cama, nada está em perigo.
Nunca viveste uma tempestade.
Nunca te fingiram um desgosto.
Continua aí, onde tudo é bom e a fruta é doce.
Hei-de chegar para te apodrecer.

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

-masu

Estou deitado numa cama portátil,
Fui adoptado pelo meu irmão.
O meu mundo não começa sequer a fazer sentido.
Jogo com pessoas e palavras para me sentir melhor
Tento que nada seja ao acaso
Tento que se perceba o meu desespero
Afogado em páginas para ninguém ler.
Afogado em letras feias sem que ninguém lhes diga.
Olho para a cara da miúda à minha frente e construo um futuro porque vivo neste sonho como forma de escape.
Lido com as mulheres como se fossem a solução.

sexta-feira, 18 de maio de 2012

"This elevator only takes one down, she said. This place, this hotellounge is my daily bread, but i'm underfed.
She asked:
-Are you living in the night? 'Cause I can tell you have a lousy imagination. And, as a matter of speaking, I hate this situation...but it happens to be one of my picking. "

dEUS
--------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------

When people stop being people and become places, they see the one thing they hid from their entire lives: The world repeats itself again and again, until there is nothing left to imagine. And what's worse is that imagination is just another way to make you help the world complete that cycle.

segunda-feira, 23 de abril de 2012

#189

Sinto que és o que não quero que ninguém aprenda. Que és a sensação em si mesma.
Não quero o teu peso, ninguém quer, mas insistes e força não falta para que nada mais seja o mesmo.
Os sons fora da realidade, conduzindo um preço a tudo.
O escuro que entra nos lençóis sagrados, de um casamento, de um funeral.
Podias ser um tapete, uma escadaria, mas não era o mesmo.
Podias ser uma janela partida, mas não servias.
Podias ser tu, intocável, atingível, provocando fraqueza nos joelhos e olhares de desânimo, mas só isso não bastava.
Precisavas de emoção verdadeira, e passaste a raiva para uma construção de miséria.
Perdeste o controlo…Agora estás em todo o lado, és de todos e não paras o teu movimento.
O ritmo é acelerado e destróis corações em música, em arte, em tribos.
Todos provam o teu veneno.
Todos são consumidos.