segunda-feira, 23 de abril de 2012

#189

Sinto que és o que não quero que ninguém aprenda. Que és a sensação em si mesma.
Não quero o teu peso, ninguém quer, mas insistes e força não falta para que nada mais seja o mesmo.
Os sons fora da realidade, conduzindo um preço a tudo.
O escuro que entra nos lençóis sagrados, de um casamento, de um funeral.
Podias ser um tapete, uma escadaria, mas não era o mesmo.
Podias ser uma janela partida, mas não servias.
Podias ser tu, intocável, atingível, provocando fraqueza nos joelhos e olhares de desânimo, mas só isso não bastava.
Precisavas de emoção verdadeira, e passaste a raiva para uma construção de miséria.
Perdeste o controlo…Agora estás em todo o lado, és de todos e não paras o teu movimento.
O ritmo é acelerado e destróis corações em música, em arte, em tribos.
Todos provam o teu veneno.
Todos são consumidos.

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Maria

Cedo marcou os pontos estelares e inventou bonitos quadros de desejo, raiva e mentira.Não imagino melhor.
Quase parado, absolveu-se e fez nascer um novo dia.
Cores vibrantes, mortas. Um quadro sobre o Paraíso. Mas não estava lá ele, não estava lá.
Estava apenas uma sombra escondida, de cadeira de rodas, a ver o nascer do sol. Já que ele não o merece, que vá para lá quem por ele sofreu.
Ele, que acolheu as suas esperanças e lugares-comuns, e os guardou entre a cabeça e o peito, por precaução.
Agora, alheada ao mundo, olha todos através de uma clarabóia, ou vê o mar, aos fins de semana. Sonha com cores conhecidas, familiares, espelhadas numa onda de proximidade.
Hoje, mais do que nunca, sinto falta de quem não recordo.
Mas o odor não desaparece.

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Pull the Pin

Às vezes penso que estou a ficar louco, daqueles loucos que não se apercebe que está sempre a dizer a mesma palavra, a mesma frase, a viver o mesmo momento a toda a hora, como se nunca tivesse havido momento mais digno de viver.
Sinto uma repetição estranha de pedaços perdidos no tempo, que se reajustam de novas e mais rebuscadas maneiras, provocando uma sensação eterna de dejá-vu.
Estou a passar tempo na mesma sala de espera, para ver a mesma pessoa, no mesmo piso, tantos anos depois. Estou a reviver cada pormenor, de maneiras diferentes, desordenadas, a fraqueza entre pontos de força, quando antes uma tinha dado lugar à outra sem que se olhasse para trás.
O corredor é o mesmo, de um verde-claro derrotista e um branco que impede o descontrolo e a raiva. A pedra provoca o sapato, luta com ele, e ouve-se um som seco de cada vez que se encontram.
Momentos mais tarde, concluo que ainda não foi desta, e sigo o caminho para casa descendo o mesmo passeio rodeado de árvores e de bancos, como se de um parque se tratasse. O parque mais sádico, onde as crianças perdidas brincam sem o saber, à espera que alguém diga que é hora de ir para casa.
Já fora daquele sítio, há outros pequenos detalhes que renovam essa suspeita. Quer seja a mesma pessoa que vemos há tantos anos fazer exactamente a mesma coisa à mesma hora, ou pequenas conversas que partilhamos sobre o mesmo assunto há tanto tempo com a mesma pessoa.
A loucura está nos pormenores, na repetição, na mecanização de tudo o que se conhece, todos os gestos. E é por isso que nunca se tem a noção de que se enlouquece. Na nossa mente, tudo é igual, fazemos tudo igual, mas à nossa volta todos sabem que somos loucos porque agimos dessa maneira. A linha é ténue, entre a loucura e a monotonia. A repetição excessiva só o é porque são outros a dizê-lo.
E tornamo-nos loucos porque reparam nisso. Nesse excesso de pormenores que já há muito deixaram de ser detalhes.
Enquanto escrevo, sinto-me louco. Porque reparar nisto é loucura.

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

Ghosts and Flowers

Porque todos os fantasmas são jardins inacabados a quem falta a rosa.
E todos os canteiros polvilhados a arrependimento, marcados pelo fim precoce, antes do florescer.
E, para todas as sementes, água a menos, vida por pouco.

Arrancada no ponto, beijada por menos, emoldurada e protegida demais, como uma qualquer obra-prima.

Frente à televisão que fala para ninguém, um pensamento que não se conclui.

Os fantasmas de quem deixou o conhecimento para logo.

E um poema natural dedilhado nas cordas de uma guitarra gasta.

Eles suspiram na noite. E esses mesmos canteiros arrependidos florescem agora, porque eles passeiam na noite, ora clara, ora escura, beijando tudo e respirando todos, fazendo o que lhes apraz.

Adormecer abraçando o véu.

E acordar na felicidade eterna.