quarta-feira, 29 de maio de 2013

Family Tree

Pedaços desconstruídos de uma imagem.
A fealdade ressurge como um beijo de há muito.
Para ser uma pessoa, quer-se a imensidão do que não existe.
E um braço longo para juntar margens.
Hoje voltei a aperceber-me que sou tudo o que já existiu antes de mim,
e que todos esses pedaços se tornam numa massa genética de patologia e êxito.
O meu êxodo mental buscou até se lembrar, mas só o instinto torna claro aquilo que se herda.
A merda toda, e as coisas boas.
Porque todos afinal somos pessoas de pessoas que o foram antes de nós.
E todos conhecemos quem nos deu vida antes de nós olhando o espelho, amedrontados.
E o que é feio sai,
fica uma mescla de sentidos, gostos e desejos,
da vida que foi prometida e vai sendo, aos poucos, concretizada

quinta-feira, 9 de maio de 2013

mais sem graça que uma top model magrela na passarela.

Gostava de começar um romance com uma personagem normal, nada a acontecer, um pouco como as vidas pouco picantes da generalidade das pessoas com a corda ao pescoço.
Uma personagem que bata nas teclas por bater e as leva consigo na viagem de autocarro por não ter mais nada que fazer. E que repare nos olhares esquisitos sem que ninguém o veja, e nada seja especial nele, a metrópole como sempre esteve. Sem carisma, sem potássio, apenas presente de corpo e não de alma, como todos os figurantes. Que as pessoas o leiam sem interesse, como um jornal gratuito, para passar o tempo no subsolo antes de chegarem a outro sítio em que o pó é igual ao do mês passado, aquelas que não estão a ver o pó a crescer em casa, num desespero de causa justificado neste país. Uma vida dentro de uma vida, em que ele próprio faz tudo isto.
E, porque não, às vezes usar uma figura de estilo, improvisar a cozinhar, pequenas coisas que se fingem e dão piada aos segundos nos cigarros que queimam.
Não sei...eu tinha um plano. Em que aos 16 me apaixonava e sofria com isso um ano depois quando tudo não desse certo, clássico no tremor da adolescência. Fazia tudo à primeira e viveria uma vida simples, com tudo no sítio mas sem extravagâncias, entretanto encontrava alguém adequado, mas nada perfeito, pensaria sempre na pessoa desse tempo, e arrependia-me mais tarde porque nunca é tarde apesar de ser sempre, aperceber-me-ia.

Era nisso que pensava quando vi um placard a anunciar que se podia anunciar ali.
E esta personagem ganhou forma na minha cabeça, uma personagem que anunciava um simples "Precisa de falar? 21*******. Das 19 às 20"
Por entre os telefonemas de gozo, falsos desesperos que troçam de quem precisa, a minha voz ecoava através de uma linha, acalmando uns, rindo ou chorando com tantos outros, a filha fazia anos hoje.
A minha vida era a noz-moscada dos outros.
A minha personagem vivia de outros.
Era feliz num pequeno conto de fadas, em encontros ocasionais com suicidas, em roupas diferentes.
Saltando de planeta em planeta, um turista na vida de quem queria.
Durante esse mês.

domingo, 14 de abril de 2013

Concubina

O ar à tua volta é alugado. Alugados os quartos, os móveis, a vida confortável. O teu ventre carrega um humano-renda, no egoísmo da tua piedade. Não és mais nem menos que os outros, apenas mais do mesmo. Mais de um mundo complicado em que a ordem impera e a crueldade é recompensada em ouro e porcelana. Tenho pena do teu mundo, seja hoje ou no Séc. XV. Diacrónico, orgulhosamente, censuro-te porque sobreviver não é tudo. A vida clamou por ti com outras vozes, outras cores. Chamou-te por outros nomes. Por que razão a amaste assim?

quarta-feira, 10 de abril de 2013

Dud

Todos os dias espero por algo de louco em mim, algo que me pare e me assuma por dentro, até nada restar.
Por muito que tenha procurado, através da merda que passei e dos momentos que me tiraram sentimentos do corpo, ainda não encontrei essa faceta específica. O demónio que todos temos, em mim é racional. Ainda que mais nada o seja. E até estou um bocado deprimido com isso. Ter em mim essa desconexão completa do mundo real abafaria os meus sentidos em tempos de culpa e dor. Bater com a cabeça até sangrar, esmurrar o mundo numa parede, contrariar a humanidade num momento de animal é preciso, é, contraditoriamente, humano e natural. Não o ter faz-me sentir mais só do que alguma vez algo fez. Menos humano e mais monstro. Feito de gelo.
Já o vi, nas caras das outras pessoas. É de fogo. É assustador. É a fúria num suspiro, uma surdez irrecuperável e uma cegueira focada em magoar, em destruir o que quer que esteja à frente, por palavras ou gestos. Gestos, sobretudo. Não o ter é não libertar o coágulo que me vai matar mais cedo. Deixá-lo entrar no meu cérebro, nas paredes do meu coração. Detonar uma bomba.
Quando reparo que se aproxima, ele enterra-se e nunca mais o vejo. Cada vez que volta é mais pequeno, menos nocivo. Suspeito que, a dada altura, virá vazio. Nessa altura, já não serei humano. A vida terá passado, e não se poderá chamar vida. Ficarei, para sempre, o cientista que observa os resultados nos ratos de laboratório, sem pensar na perda. Com um objectivo maior. Ou, pelo menos, será essa a justificação que encontrarei para um dia em que eu deixo de ser eu e passo a ser o eu que me era destinado. Um eu que perdeu a ligação a tudo o que é natural. Um ser diferente, pior, do que todos os outros. Sem motivos, motivações, emoções. Sem que nada reste.
Um Buda decaído.
Um anti-homem.
Um anti-animal.
Um anti-natureza.
Um anti.

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

"Não te custa, às vezes, ter ideias?"
"Não é preciso tê-las. É preciso que apareçam e desapareçam, que fiques atormentado com isso, e que nunca mais te lembres. E depois, escreve, à procura, para nunca mais as encontrar."

segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

lone star

Continuas evadida.
No fim do mundo, continuas evadida, continuas precoce, continuas calma.
Eu? Eu vou respirando. De vez em quando ainda olho para aí, está tudo na mesma.
Ainda pego no caderno. Ainda imagino umas linhas, um caminho.
Um suporte de vida.
É melhor ficares aí.
O teu pedestal é seguro. É indolor. É o tipo bom de insípido.
Nenhum monstro se esconde debaixo da tua cama, nada está em perigo.
Nunca viveste uma tempestade.
Nunca te fingiram um desgosto.
Continua aí, onde tudo é bom e a fruta é doce.
Hei-de chegar para te apodrecer.

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

-masu

Estou deitado numa cama portátil,
Fui adoptado pelo meu irmão.
O meu mundo não começa sequer a fazer sentido.
Jogo com pessoas e palavras para me sentir melhor
Tento que nada seja ao acaso
Tento que se perceba o meu desespero
Afogado em páginas para ninguém ler.
Afogado em letras feias sem que ninguém lhes diga.
Olho para a cara da miúda à minha frente e construo um futuro porque vivo neste sonho como forma de escape.
Lido com as mulheres como se fossem a solução.

quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

E

O que eu faço é assassinio. Eu, e eu só, mato tudo o que lhe resta na cabeça, mutilo qualquer pedaço de humanidade que lhe reste. Dia-a-dia, eu roubo-lhe um passado que ela guarda com as unhas, com toda a vontade e desespero, com os dentes, com a vida. E eu, num deslizar mal pensado de língua, tiro-lhe tudo, tudo  o que ela foi, animalizo-a, minimalizo-a, e ela torna-se na mobilia da casa que me matou a mim.
Eu só queria mais um segundo são com ela, só queria mais um instante dela para me lembrar, para não repetir, para guardar sempre, aqui tão próximo, infinitamente longe.
Só mais um monólogo de queixas acerca da vida que nos maltrata, da vida que nos polui, que nos assalta, tudo isto num sofá confortável, sobre a mesa velas aromáticas e no seu corpo roupas de seda.
Só mais um instante de medos de uma vida terrível sem a ter.
Apenas mais um. Apenas uma merda de um cigarro com a minha mãe.

sexta-feira, 18 de maio de 2012

"This elevator only takes one down, she said. This place, this hotellounge is my daily bread, but i'm underfed.
She asked:
-Are you living in the night? 'Cause I can tell you have a lousy imagination. And, as a matter of speaking, I hate this situation...but it happens to be one of my picking. "

dEUS
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When people stop being people and become places, they see the one thing they hid from their entire lives: The world repeats itself again and again, until there is nothing left to imagine. And what's worse is that imagination is just another way to make you help the world complete that cycle.

segunda-feira, 23 de abril de 2012

#189

Sinto que és o que não quero que ninguém aprenda. Que és a sensação em si mesma.
Não quero o teu peso, ninguém quer, mas insistes e força não falta para que nada mais seja o mesmo.
Os sons fora da realidade, conduzindo um preço a tudo.
O escuro que entra nos lençóis sagrados, de um casamento, de um funeral.
Podias ser um tapete, uma escadaria, mas não era o mesmo.
Podias ser uma janela partida, mas não servias.
Podias ser tu, intocável, atingível, provocando fraqueza nos joelhos e olhares de desânimo, mas só isso não bastava.
Precisavas de emoção verdadeira, e passaste a raiva para uma construção de miséria.
Perdeste o controlo…Agora estás em todo o lado, és de todos e não paras o teu movimento.
O ritmo é acelerado e destróis corações em música, em arte, em tribos.
Todos provam o teu veneno.
Todos são consumidos.