Flutuo entre páginas rasgadas nos cantos mais sinistros da minha mente, deixando a marca de quem quer muito ter algo para dizer.
Uns dias penso que sim.
Outros, nem por isso.
Reservo para mim tudo aquilo que nunca te expus, como se ao lavar a loiça te surja o "eureka". E desses lábios possa um dia ler as palavras "esquece tudo isso".
Para mim, não há maior prazer que o elixir ardente que desinfecta bocas cuspindo mentiras e palavras de ódio. Deve ser por isso que vacilo entre pessoas como um pêndulo cansado. Porque a minha verdade nunca é a mesma.
De fora ficam todas essas ideias que não se concretizam. Mas tu chegas lá.
don't go and lose your face/ at some stranger's place / and don't forget to breathe / and pay before you leave / lay me down to crawl
domingo, 18 de agosto de 2013
Pool Shark
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segunda-feira, 29 de julho de 2013
#216
É quase crime não ver os dias como músicas do Tom Waits, com o mundo ao alcance de uma chave partida e a um bourbon do buraco onde o Hank descansa.
Viver ao máximo, pelo mínimo possível, brutalizar cada olhar em fuga entre putas e insultos curtos, perceber o som da decadência num cinzeiro sujo - trôpego na maior dignidade, dicas de engate em onomatopeias para levar para a cama uma mulher dois sóis à frente do seu melhor momento com uma corda ao pescoço e matrículas por pagar.
Viver ao máximo, pelo mínimo possível, brutalizar cada olhar em fuga entre putas e insultos curtos, perceber o som da decadência num cinzeiro sujo - trôpego na maior dignidade, dicas de engate em onomatopeias para levar para a cama uma mulher dois sóis à frente do seu melhor momento com uma corda ao pescoço e matrículas por pagar.
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quarta-feira, 24 de julho de 2013
A Decisão.
Temos um livro e um cinzeiro pousados sobre a decisão.
A minha sombra fez dieta até não existir, presa entre fotografias tuas e dias ensaiados.
Na mão esquerda um fósforo ansioso, quer muito atear fogo a uma discussão que não vai acabar.
No meu peito um aperto provocado pelas palavras que se cospem sem pensamento.
E um rasgo de melancolia.
Lá fora a noite prospera e dá luz aos amantes, comigo a ver.
Tudo em mim treme.
Quantas vezes não tremeu, por ti, noutras alturas e por outros motivos?
Isto não é vida.
Segue.
Segue.
Segue.
Mas antes, adio.
Fica para amanhã o julgamento que me envelhece.
A minha sombra fez dieta até não existir, presa entre fotografias tuas e dias ensaiados.
Na mão esquerda um fósforo ansioso, quer muito atear fogo a uma discussão que não vai acabar.
No meu peito um aperto provocado pelas palavras que se cospem sem pensamento.
E um rasgo de melancolia.
Lá fora a noite prospera e dá luz aos amantes, comigo a ver.
Tudo em mim treme.
Quantas vezes não tremeu, por ti, noutras alturas e por outros motivos?
Isto não é vida.
Segue.
Segue.
Segue.
Mas antes, adio.
Fica para amanhã o julgamento que me envelhece.
domingo, 14 de julho de 2013
Temos de falar
Por baixo de um suave toldo, como circunstância, apagava-se mais uma cédula nas gotas de chuva.
Ele sonhava com dias frios, não precisava de apertos no coração.
Com um braço a cruzar por outro, procurava a força na fragilidade de um ser que se tornava em dois.
O seu ar era o nosso, às vezes sublinhado por rosas em flor, outras pelo aroma desagradável do fumo.
Mesmo dentro de si, sentia que uma peça faltava,
Entre o choro das manhãs,
No pesar dos dias.
Tudo deixava de ser.
A vida era agora um solo de violino triste enquanto a orquestra arrumava as pautas.
Ele sonhava com dias frios, não precisava de apertos no coração.
Com um braço a cruzar por outro, procurava a força na fragilidade de um ser que se tornava em dois.
O seu ar era o nosso, às vezes sublinhado por rosas em flor, outras pelo aroma desagradável do fumo.
Mesmo dentro de si, sentia que uma peça faltava,
Entre o choro das manhãs,
No pesar dos dias.
Tudo deixava de ser.
A vida era agora um solo de violino triste enquanto a orquestra arrumava as pautas.
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segunda-feira, 8 de julho de 2013
Serpentine
Por momentos, pensei que te vi na paragem, e logo bombeou através de mim um fundo falso de nostalgia.
Os anos passaram como leite, de um momento para o outro, e algo azedou. Nada nos resta, nada.
É apenas mais um punhado de minutos gasto a recuperar sentimentos, pessoas de ontem que lá deviam ter ficado.
Nada se repete. Não vale a pena furar dedos de novo, o sangue trocado nunca será igual.
Músicos surdos só produzem anti-som.
E, enquanto o autocarro fugia, deu para todas as memórias despontarem e criarem em mim uma profunda ingratidão pelo aroma que sobrava da vela apagada,
Não te perdoo, não me perdoes. Não quero o agora, quero a eternidade dos nossos segundos cúmplices pousados no cigarro hesitante, na boca seca do álcool.
Mas não dá.
Os anos passaram como leite, de um momento para o outro, e algo azedou. Nada nos resta, nada.
É apenas mais um punhado de minutos gasto a recuperar sentimentos, pessoas de ontem que lá deviam ter ficado.
Nada se repete. Não vale a pena furar dedos de novo, o sangue trocado nunca será igual.
Músicos surdos só produzem anti-som.
E, enquanto o autocarro fugia, deu para todas as memórias despontarem e criarem em mim uma profunda ingratidão pelo aroma que sobrava da vela apagada,
Não te perdoo, não me perdoes. Não quero o agora, quero a eternidade dos nossos segundos cúmplices pousados no cigarro hesitante, na boca seca do álcool.
Mas não dá.
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quarta-feira, 29 de maio de 2013
Family Tree
Pedaços desconstruídos de uma imagem.
A fealdade ressurge como um beijo de há muito.
Para ser uma pessoa, quer-se a imensidão do que não existe.
E um braço longo para juntar margens.
Hoje voltei a aperceber-me que sou tudo o que já existiu antes de mim,
e que todos esses pedaços se tornam numa massa genética de patologia e êxito.
O meu êxodo mental buscou até se lembrar, mas só o instinto torna claro aquilo que se herda.
A merda toda, e as coisas boas.
Porque todos afinal somos pessoas de pessoas que o foram antes de nós.
E todos conhecemos quem nos deu vida antes de nós olhando o espelho, amedrontados.
E o que é feio sai,
fica uma mescla de sentidos, gostos e desejos,
da vida que foi prometida e vai sendo, aos poucos, concretizada
A fealdade ressurge como um beijo de há muito.
Para ser uma pessoa, quer-se a imensidão do que não existe.
E um braço longo para juntar margens.
Hoje voltei a aperceber-me que sou tudo o que já existiu antes de mim,
e que todos esses pedaços se tornam numa massa genética de patologia e êxito.
O meu êxodo mental buscou até se lembrar, mas só o instinto torna claro aquilo que se herda.
A merda toda, e as coisas boas.
Porque todos afinal somos pessoas de pessoas que o foram antes de nós.
E todos conhecemos quem nos deu vida antes de nós olhando o espelho, amedrontados.
E o que é feio sai,
fica uma mescla de sentidos, gostos e desejos,
da vida que foi prometida e vai sendo, aos poucos, concretizada
quinta-feira, 9 de maio de 2013
mais sem graça que uma top model magrela na passarela.
Gostava de começar um romance com uma personagem normal, nada a acontecer, um pouco como as vidas pouco picantes da generalidade das pessoas com a corda ao pescoço.
Uma personagem que bata nas teclas por bater e as leva consigo na viagem de autocarro por não ter mais nada que fazer. E que repare nos olhares esquisitos sem que ninguém o veja, e nada seja especial nele, a metrópole como sempre esteve. Sem carisma, sem potássio, apenas presente de corpo e não de alma, como todos os figurantes. Que as pessoas o leiam sem interesse, como um jornal gratuito, para passar o tempo no subsolo antes de chegarem a outro sítio em que o pó é igual ao do mês passado, aquelas que não estão a ver o pó a crescer em casa, num desespero de causa justificado neste país. Uma vida dentro de uma vida, em que ele próprio faz tudo isto.
E, porque não, às vezes usar uma figura de estilo, improvisar a cozinhar, pequenas coisas que se fingem e dão piada aos segundos nos cigarros que queimam.
Não sei...eu tinha um plano. Em que aos 16 me apaixonava e sofria com isso um ano depois quando tudo não desse certo, clássico no tremor da adolescência. Fazia tudo à primeira e viveria uma vida simples, com tudo no sítio mas sem extravagâncias, entretanto encontrava alguém adequado, mas nada perfeito, pensaria sempre na pessoa desse tempo, e arrependia-me mais tarde porque nunca é tarde apesar de ser sempre, aperceber-me-ia.
Era nisso que pensava quando vi um placard a anunciar que se podia anunciar ali.
E esta personagem ganhou forma na minha cabeça, uma personagem que anunciava um simples "Precisa de falar? 21*******. Das 19 às 20"
Por entre os telefonemas de gozo, falsos desesperos que troçam de quem precisa, a minha voz ecoava através de uma linha, acalmando uns, rindo ou chorando com tantos outros, a filha fazia anos hoje.
A minha vida era a noz-moscada dos outros.
A minha personagem vivia de outros.
Era feliz num pequeno conto de fadas, em encontros ocasionais com suicidas, em roupas diferentes.
Saltando de planeta em planeta, um turista na vida de quem queria.
Durante esse mês.
Uma personagem que bata nas teclas por bater e as leva consigo na viagem de autocarro por não ter mais nada que fazer. E que repare nos olhares esquisitos sem que ninguém o veja, e nada seja especial nele, a metrópole como sempre esteve. Sem carisma, sem potássio, apenas presente de corpo e não de alma, como todos os figurantes. Que as pessoas o leiam sem interesse, como um jornal gratuito, para passar o tempo no subsolo antes de chegarem a outro sítio em que o pó é igual ao do mês passado, aquelas que não estão a ver o pó a crescer em casa, num desespero de causa justificado neste país. Uma vida dentro de uma vida, em que ele próprio faz tudo isto.
E, porque não, às vezes usar uma figura de estilo, improvisar a cozinhar, pequenas coisas que se fingem e dão piada aos segundos nos cigarros que queimam.
Não sei...eu tinha um plano. Em que aos 16 me apaixonava e sofria com isso um ano depois quando tudo não desse certo, clássico no tremor da adolescência. Fazia tudo à primeira e viveria uma vida simples, com tudo no sítio mas sem extravagâncias, entretanto encontrava alguém adequado, mas nada perfeito, pensaria sempre na pessoa desse tempo, e arrependia-me mais tarde porque nunca é tarde apesar de ser sempre, aperceber-me-ia.
Era nisso que pensava quando vi um placard a anunciar que se podia anunciar ali.
E esta personagem ganhou forma na minha cabeça, uma personagem que anunciava um simples "Precisa de falar? 21*******. Das 19 às 20"
Por entre os telefonemas de gozo, falsos desesperos que troçam de quem precisa, a minha voz ecoava através de uma linha, acalmando uns, rindo ou chorando com tantos outros, a filha fazia anos hoje.
A minha vida era a noz-moscada dos outros.
A minha personagem vivia de outros.
Era feliz num pequeno conto de fadas, em encontros ocasionais com suicidas, em roupas diferentes.
Saltando de planeta em planeta, um turista na vida de quem queria.
Durante esse mês.
domingo, 14 de abril de 2013
Concubina
O ar à tua volta é alugado. Alugados os quartos, os móveis, a vida confortável. O teu ventre carrega um humano-renda, no egoísmo da tua piedade. Não és mais nem menos que os outros, apenas mais do mesmo. Mais de um mundo complicado em que a ordem impera e a crueldade é recompensada em ouro e porcelana. Tenho pena do teu mundo, seja hoje ou no Séc. XV. Diacrónico, orgulhosamente, censuro-te porque sobreviver não é tudo. A vida clamou por ti com outras vozes, outras cores. Chamou-te por outros nomes. Por que razão a amaste assim?
quarta-feira, 10 de abril de 2013
Dud
Todos os dias espero por algo de louco em mim, algo que me pare e me assuma por dentro, até nada restar.
Por muito que tenha procurado, através da merda que passei e dos momentos que me tiraram sentimentos do corpo, ainda não encontrei essa faceta específica. O demónio que todos temos, em mim é racional. Ainda que mais nada o seja. E até estou um bocado deprimido com isso. Ter em mim essa desconexão completa do mundo real abafaria os meus sentidos em tempos de culpa e dor. Bater com a cabeça até sangrar, esmurrar o mundo numa parede, contrariar a humanidade num momento de animal é preciso, é, contraditoriamente, humano e natural. Não o ter faz-me sentir mais só do que alguma vez algo fez. Menos humano e mais monstro. Feito de gelo.
Já o vi, nas caras das outras pessoas. É de fogo. É assustador. É a fúria num suspiro, uma surdez irrecuperável e uma cegueira focada em magoar, em destruir o que quer que esteja à frente, por palavras ou gestos. Gestos, sobretudo. Não o ter é não libertar o coágulo que me vai matar mais cedo. Deixá-lo entrar no meu cérebro, nas paredes do meu coração. Detonar uma bomba.
Quando reparo que se aproxima, ele enterra-se e nunca mais o vejo. Cada vez que volta é mais pequeno, menos nocivo. Suspeito que, a dada altura, virá vazio. Nessa altura, já não serei humano. A vida terá passado, e não se poderá chamar vida. Ficarei, para sempre, o cientista que observa os resultados nos ratos de laboratório, sem pensar na perda. Com um objectivo maior. Ou, pelo menos, será essa a justificação que encontrarei para um dia em que eu deixo de ser eu e passo a ser o eu que me era destinado. Um eu que perdeu a ligação a tudo o que é natural. Um ser diferente, pior, do que todos os outros. Sem motivos, motivações, emoções. Sem que nada reste.
Um Buda decaído.
Um anti-homem.
Um anti-animal.
Um anti-natureza.
Um anti.
Por muito que tenha procurado, através da merda que passei e dos momentos que me tiraram sentimentos do corpo, ainda não encontrei essa faceta específica. O demónio que todos temos, em mim é racional. Ainda que mais nada o seja. E até estou um bocado deprimido com isso. Ter em mim essa desconexão completa do mundo real abafaria os meus sentidos em tempos de culpa e dor. Bater com a cabeça até sangrar, esmurrar o mundo numa parede, contrariar a humanidade num momento de animal é preciso, é, contraditoriamente, humano e natural. Não o ter faz-me sentir mais só do que alguma vez algo fez. Menos humano e mais monstro. Feito de gelo.
Já o vi, nas caras das outras pessoas. É de fogo. É assustador. É a fúria num suspiro, uma surdez irrecuperável e uma cegueira focada em magoar, em destruir o que quer que esteja à frente, por palavras ou gestos. Gestos, sobretudo. Não o ter é não libertar o coágulo que me vai matar mais cedo. Deixá-lo entrar no meu cérebro, nas paredes do meu coração. Detonar uma bomba.
Quando reparo que se aproxima, ele enterra-se e nunca mais o vejo. Cada vez que volta é mais pequeno, menos nocivo. Suspeito que, a dada altura, virá vazio. Nessa altura, já não serei humano. A vida terá passado, e não se poderá chamar vida. Ficarei, para sempre, o cientista que observa os resultados nos ratos de laboratório, sem pensar na perda. Com um objectivo maior. Ou, pelo menos, será essa a justificação que encontrarei para um dia em que eu deixo de ser eu e passo a ser o eu que me era destinado. Um eu que perdeu a ligação a tudo o que é natural. Um ser diferente, pior, do que todos os outros. Sem motivos, motivações, emoções. Sem que nada reste.
Um Buda decaído.
Um anti-homem.
Um anti-animal.
Um anti-natureza.
Um anti.
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