Já faz algum tempo que saltaste, mais de um mês creio. Mas contar os dias é cruel.
Vi descer o teu caixão, e conto-te um segredo: A morte fica-te larga, meu amigo. Como quem veste a camisa do pai.
Não fui capaz de te chorar no dia, nem no seguinte. O teu irmão precisava de mim, e por isso estive lá. Num corredor cheio de breves olás, porque o caos é de todos, aparentemente. Detesto isso.
A mostra de preocupação é o óxigenio de quem não está presente.
E, apesar de haver um, dois, muitos dias em que quero ir aí ter, não posso.
Mas fizeste a tua decisão, e foste andando uns passos à frente.
Eu já vou. Só mais uns-
don't go and lose your face/ at some stranger's place / and don't forget to breathe / and pay before you leave / lay me down to crawl
segunda-feira, 23 de setembro de 2013
quinta-feira, 19 de setembro de 2013
Stockholm Syndrom
AMSTERDAM
Já alguma vez repararam no Homem que espera ao longo do paredão da praia dos Pescadores, na Ericeira?
Certa noite, no regresso a casa passei por lá e sem qualquer razão pus-me a olhar ao longo da costa, até que vi, recortada, uma figura sentada, de mãos ao colo, pés baloiçantes, só, ali, à espera de alguma coisa.
Não sei o que é, não sei mesmo, mas tem de ser alguma coisa. Ninguém arrisca a erosão lenta e fria sem razão.
Comecei a pensar numa infinidade de coisas, tudo poderia ser. Apresento-vos a melhor ideia.
O Homem era cativo do mar. Tal como uma vítima de rapto, sofreu às suas mãos, a sopa estava no balcão, a água numa tigela rente à porta. O frio fazia-o adoptar uma posição fetal.
Mas havia alguma coisa de errado. Não havia ódio. Passaram meses, anos talvez, mas nada crescia nele, não agora. Antes sim.
O mundo era aquilo. Duas palavras por dia, utilização imprópria e a luz por um buraco na parede.
Escuro.
Dias em noites, vice-versa.
O único traço de humanidade estava na visita do captor.
Nada mais restava.
Só toques no braço,
E momentos a partilhar.
8 o'clock and we agree
Gosto que me faças sentir burro da maneira certa.
Mesmo que não tenhas o terror presente nos ossos, favor da vida.
De vez em quando viver de pulmões cheios é preciso, por todos aqueles dias em que os comprimidos seduzem e a melancolia mata lentamente, feita de cigarros e promessas de "amanhã vou".
Tu vives numa cidade berrante, em que os segundos acontecem cheios, rebentam até ao próximo, e eu longe, no meio dos meus pensamentos, na calma enlouquecida de uma pequena vila.
Por isso, quando as nossas mentes batalham - não são discussões, antes pretensiosas tertúlias, como todos temos - isso revela-se, o suficiente para me deixar sem ar e com a sensação de coisas a passar.
Tudo passa, tudo passa.
Até me fartar e deixar bilhetes de adeus na soleira de portas amigas.
Não voltar.
Mesmo que não tenhas o terror presente nos ossos, favor da vida.
De vez em quando viver de pulmões cheios é preciso, por todos aqueles dias em que os comprimidos seduzem e a melancolia mata lentamente, feita de cigarros e promessas de "amanhã vou".
Tu vives numa cidade berrante, em que os segundos acontecem cheios, rebentam até ao próximo, e eu longe, no meio dos meus pensamentos, na calma enlouquecida de uma pequena vila.
Por isso, quando as nossas mentes batalham - não são discussões, antes pretensiosas tertúlias, como todos temos - isso revela-se, o suficiente para me deixar sem ar e com a sensação de coisas a passar.
Tudo passa, tudo passa.
Até me fartar e deixar bilhetes de adeus na soleira de portas amigas.
Não voltar.
domingo, 18 de agosto de 2013
Pool Shark
Flutuo entre páginas rasgadas nos cantos mais sinistros da minha mente, deixando a marca de quem quer muito ter algo para dizer.
Uns dias penso que sim.
Outros, nem por isso.
Reservo para mim tudo aquilo que nunca te expus, como se ao lavar a loiça te surja o "eureka". E desses lábios possa um dia ler as palavras "esquece tudo isso".
Para mim, não há maior prazer que o elixir ardente que desinfecta bocas cuspindo mentiras e palavras de ódio. Deve ser por isso que vacilo entre pessoas como um pêndulo cansado. Porque a minha verdade nunca é a mesma.
De fora ficam todas essas ideias que não se concretizam. Mas tu chegas lá.
Uns dias penso que sim.
Outros, nem por isso.
Reservo para mim tudo aquilo que nunca te expus, como se ao lavar a loiça te surja o "eureka". E desses lábios possa um dia ler as palavras "esquece tudo isso".
Para mim, não há maior prazer que o elixir ardente que desinfecta bocas cuspindo mentiras e palavras de ódio. Deve ser por isso que vacilo entre pessoas como um pêndulo cansado. Porque a minha verdade nunca é a mesma.
De fora ficam todas essas ideias que não se concretizam. Mas tu chegas lá.
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segunda-feira, 29 de julho de 2013
#216
É quase crime não ver os dias como músicas do Tom Waits, com o mundo ao alcance de uma chave partida e a um bourbon do buraco onde o Hank descansa.
Viver ao máximo, pelo mínimo possível, brutalizar cada olhar em fuga entre putas e insultos curtos, perceber o som da decadência num cinzeiro sujo - trôpego na maior dignidade, dicas de engate em onomatopeias para levar para a cama uma mulher dois sóis à frente do seu melhor momento com uma corda ao pescoço e matrículas por pagar.
Viver ao máximo, pelo mínimo possível, brutalizar cada olhar em fuga entre putas e insultos curtos, perceber o som da decadência num cinzeiro sujo - trôpego na maior dignidade, dicas de engate em onomatopeias para levar para a cama uma mulher dois sóis à frente do seu melhor momento com uma corda ao pescoço e matrículas por pagar.
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quarta-feira, 24 de julho de 2013
A Decisão.
Temos um livro e um cinzeiro pousados sobre a decisão.
A minha sombra fez dieta até não existir, presa entre fotografias tuas e dias ensaiados.
Na mão esquerda um fósforo ansioso, quer muito atear fogo a uma discussão que não vai acabar.
No meu peito um aperto provocado pelas palavras que se cospem sem pensamento.
E um rasgo de melancolia.
Lá fora a noite prospera e dá luz aos amantes, comigo a ver.
Tudo em mim treme.
Quantas vezes não tremeu, por ti, noutras alturas e por outros motivos?
Isto não é vida.
Segue.
Segue.
Segue.
Mas antes, adio.
Fica para amanhã o julgamento que me envelhece.
A minha sombra fez dieta até não existir, presa entre fotografias tuas e dias ensaiados.
Na mão esquerda um fósforo ansioso, quer muito atear fogo a uma discussão que não vai acabar.
No meu peito um aperto provocado pelas palavras que se cospem sem pensamento.
E um rasgo de melancolia.
Lá fora a noite prospera e dá luz aos amantes, comigo a ver.
Tudo em mim treme.
Quantas vezes não tremeu, por ti, noutras alturas e por outros motivos?
Isto não é vida.
Segue.
Segue.
Segue.
Mas antes, adio.
Fica para amanhã o julgamento que me envelhece.
domingo, 14 de julho de 2013
Temos de falar
Por baixo de um suave toldo, como circunstância, apagava-se mais uma cédula nas gotas de chuva.
Ele sonhava com dias frios, não precisava de apertos no coração.
Com um braço a cruzar por outro, procurava a força na fragilidade de um ser que se tornava em dois.
O seu ar era o nosso, às vezes sublinhado por rosas em flor, outras pelo aroma desagradável do fumo.
Mesmo dentro de si, sentia que uma peça faltava,
Entre o choro das manhãs,
No pesar dos dias.
Tudo deixava de ser.
A vida era agora um solo de violino triste enquanto a orquestra arrumava as pautas.
Ele sonhava com dias frios, não precisava de apertos no coração.
Com um braço a cruzar por outro, procurava a força na fragilidade de um ser que se tornava em dois.
O seu ar era o nosso, às vezes sublinhado por rosas em flor, outras pelo aroma desagradável do fumo.
Mesmo dentro de si, sentia que uma peça faltava,
Entre o choro das manhãs,
No pesar dos dias.
Tudo deixava de ser.
A vida era agora um solo de violino triste enquanto a orquestra arrumava as pautas.
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segunda-feira, 8 de julho de 2013
Serpentine
Por momentos, pensei que te vi na paragem, e logo bombeou através de mim um fundo falso de nostalgia.
Os anos passaram como leite, de um momento para o outro, e algo azedou. Nada nos resta, nada.
É apenas mais um punhado de minutos gasto a recuperar sentimentos, pessoas de ontem que lá deviam ter ficado.
Nada se repete. Não vale a pena furar dedos de novo, o sangue trocado nunca será igual.
Músicos surdos só produzem anti-som.
E, enquanto o autocarro fugia, deu para todas as memórias despontarem e criarem em mim uma profunda ingratidão pelo aroma que sobrava da vela apagada,
Não te perdoo, não me perdoes. Não quero o agora, quero a eternidade dos nossos segundos cúmplices pousados no cigarro hesitante, na boca seca do álcool.
Mas não dá.
Os anos passaram como leite, de um momento para o outro, e algo azedou. Nada nos resta, nada.
É apenas mais um punhado de minutos gasto a recuperar sentimentos, pessoas de ontem que lá deviam ter ficado.
Nada se repete. Não vale a pena furar dedos de novo, o sangue trocado nunca será igual.
Músicos surdos só produzem anti-som.
E, enquanto o autocarro fugia, deu para todas as memórias despontarem e criarem em mim uma profunda ingratidão pelo aroma que sobrava da vela apagada,
Não te perdoo, não me perdoes. Não quero o agora, quero a eternidade dos nossos segundos cúmplices pousados no cigarro hesitante, na boca seca do álcool.
Mas não dá.
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quarta-feira, 29 de maio de 2013
Family Tree
Pedaços desconstruídos de uma imagem.
A fealdade ressurge como um beijo de há muito.
Para ser uma pessoa, quer-se a imensidão do que não existe.
E um braço longo para juntar margens.
Hoje voltei a aperceber-me que sou tudo o que já existiu antes de mim,
e que todos esses pedaços se tornam numa massa genética de patologia e êxito.
O meu êxodo mental buscou até se lembrar, mas só o instinto torna claro aquilo que se herda.
A merda toda, e as coisas boas.
Porque todos afinal somos pessoas de pessoas que o foram antes de nós.
E todos conhecemos quem nos deu vida antes de nós olhando o espelho, amedrontados.
E o que é feio sai,
fica uma mescla de sentidos, gostos e desejos,
da vida que foi prometida e vai sendo, aos poucos, concretizada
A fealdade ressurge como um beijo de há muito.
Para ser uma pessoa, quer-se a imensidão do que não existe.
E um braço longo para juntar margens.
Hoje voltei a aperceber-me que sou tudo o que já existiu antes de mim,
e que todos esses pedaços se tornam numa massa genética de patologia e êxito.
O meu êxodo mental buscou até se lembrar, mas só o instinto torna claro aquilo que se herda.
A merda toda, e as coisas boas.
Porque todos afinal somos pessoas de pessoas que o foram antes de nós.
E todos conhecemos quem nos deu vida antes de nós olhando o espelho, amedrontados.
E o que é feio sai,
fica uma mescla de sentidos, gostos e desejos,
da vida que foi prometida e vai sendo, aos poucos, concretizada
quinta-feira, 9 de maio de 2013
mais sem graça que uma top model magrela na passarela.
Gostava de começar um romance com uma personagem normal, nada a acontecer, um pouco como as vidas pouco picantes da generalidade das pessoas com a corda ao pescoço.
Uma personagem que bata nas teclas por bater e as leva consigo na viagem de autocarro por não ter mais nada que fazer. E que repare nos olhares esquisitos sem que ninguém o veja, e nada seja especial nele, a metrópole como sempre esteve. Sem carisma, sem potássio, apenas presente de corpo e não de alma, como todos os figurantes. Que as pessoas o leiam sem interesse, como um jornal gratuito, para passar o tempo no subsolo antes de chegarem a outro sítio em que o pó é igual ao do mês passado, aquelas que não estão a ver o pó a crescer em casa, num desespero de causa justificado neste país. Uma vida dentro de uma vida, em que ele próprio faz tudo isto.
E, porque não, às vezes usar uma figura de estilo, improvisar a cozinhar, pequenas coisas que se fingem e dão piada aos segundos nos cigarros que queimam.
Não sei...eu tinha um plano. Em que aos 16 me apaixonava e sofria com isso um ano depois quando tudo não desse certo, clássico no tremor da adolescência. Fazia tudo à primeira e viveria uma vida simples, com tudo no sítio mas sem extravagâncias, entretanto encontrava alguém adequado, mas nada perfeito, pensaria sempre na pessoa desse tempo, e arrependia-me mais tarde porque nunca é tarde apesar de ser sempre, aperceber-me-ia.
Era nisso que pensava quando vi um placard a anunciar que se podia anunciar ali.
E esta personagem ganhou forma na minha cabeça, uma personagem que anunciava um simples "Precisa de falar? 21*******. Das 19 às 20"
Por entre os telefonemas de gozo, falsos desesperos que troçam de quem precisa, a minha voz ecoava através de uma linha, acalmando uns, rindo ou chorando com tantos outros, a filha fazia anos hoje.
A minha vida era a noz-moscada dos outros.
A minha personagem vivia de outros.
Era feliz num pequeno conto de fadas, em encontros ocasionais com suicidas, em roupas diferentes.
Saltando de planeta em planeta, um turista na vida de quem queria.
Durante esse mês.
Uma personagem que bata nas teclas por bater e as leva consigo na viagem de autocarro por não ter mais nada que fazer. E que repare nos olhares esquisitos sem que ninguém o veja, e nada seja especial nele, a metrópole como sempre esteve. Sem carisma, sem potássio, apenas presente de corpo e não de alma, como todos os figurantes. Que as pessoas o leiam sem interesse, como um jornal gratuito, para passar o tempo no subsolo antes de chegarem a outro sítio em que o pó é igual ao do mês passado, aquelas que não estão a ver o pó a crescer em casa, num desespero de causa justificado neste país. Uma vida dentro de uma vida, em que ele próprio faz tudo isto.
E, porque não, às vezes usar uma figura de estilo, improvisar a cozinhar, pequenas coisas que se fingem e dão piada aos segundos nos cigarros que queimam.
Não sei...eu tinha um plano. Em que aos 16 me apaixonava e sofria com isso um ano depois quando tudo não desse certo, clássico no tremor da adolescência. Fazia tudo à primeira e viveria uma vida simples, com tudo no sítio mas sem extravagâncias, entretanto encontrava alguém adequado, mas nada perfeito, pensaria sempre na pessoa desse tempo, e arrependia-me mais tarde porque nunca é tarde apesar de ser sempre, aperceber-me-ia.
Era nisso que pensava quando vi um placard a anunciar que se podia anunciar ali.
E esta personagem ganhou forma na minha cabeça, uma personagem que anunciava um simples "Precisa de falar? 21*******. Das 19 às 20"
Por entre os telefonemas de gozo, falsos desesperos que troçam de quem precisa, a minha voz ecoava através de uma linha, acalmando uns, rindo ou chorando com tantos outros, a filha fazia anos hoje.
A minha vida era a noz-moscada dos outros.
A minha personagem vivia de outros.
Era feliz num pequeno conto de fadas, em encontros ocasionais com suicidas, em roupas diferentes.
Saltando de planeta em planeta, um turista na vida de quem queria.
Durante esse mês.
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