terça-feira, 5 de novembro de 2013

Go to sleep

 
a melhor banda em actividade (ponto)
 
 
 
 
Vou dormir,
Tenho que ir dormir
porque
sinto que alguma
coisa vai correr mal
aqui dentro
no núcleo
que tudo governa
e tudo sente
e comanda a estupidez dos afectos
e a preguiça nos dias
e diz que as queimaduras doem.
 
Vou dormir,
senão os meus pulmões intimidam
os bronquios
e engolem a traqueia
e deixam-me a espernear
porque
ainda
não disse
tudo.

Tem de ser
tem de ser,
tenho de dormir
agora,
para poder gozar
o escuro
e deixar os braços cair
ao lado
e correr atrás
de um sonho
e sentir o coração
no ouvido.

respirar conscientemente cansa.

sexta-feira, 1 de novembro de 2013

Picoas

Tive um sonho com uma locomotiva que parava para quem queria entrar, porque o pó e as migalhas também têm o seu orgulho.
Era uma carruagem cheia de corações partidos, olhares esquisitos que queriam a mesma coisa.
Ele disse: "eu não quero passar a viagem calado nos lábios de outra pessoa. Parem de escrever e falem comigo."
E os gritos entraram como percussão através das cordas, as lágrimas no meu lenço não eram minhas, estou entre os meus.
Valeu a pena ser fecundado neste universo estéril.

terça-feira, 22 de outubro de 2013

Relógios Sangue, Ponteiros Ouro, Água Benta

Lágrimas de crocodilo
o sangue escorre
como água de braço hirto - o horror.

Tinha de ser.
O tempo é tudo
e só as crianças o podem pisar.

"Nada foi perfeito"
dizes ao azulejo,
às paredes
à água quente
que te toca
e te relaxa os músculos
nestes últimos segundos.


domingo, 20 de outubro de 2013

Footsteps

O que fazer quando já nem humanidade temos em comum? Quando nos sentamos na sala, frente a frente, e o desejo é silêncio permanente, o ar suportando esta forma de vida que escorre de nós, coagulada, a custo?
Diz-me, porque já não sei o que fazer.
Desespero gravemente sobre a tua indiferença, sobre a frieza daquilo que te escapa,  sobre aquilo que já não és e nunca mais vais poder ser. Sobre não suportar uma culpa que nos envolve e nos torna feios por dentro, mata devagar, mas tão devagar que não dói, só incomoda, chuva miúda.
Estou só tão cansado de respirar este espaço. Como se as forças nunca tivessem existido. E nunca nada nos tivesse ligado.

sábado, 19 de outubro de 2013

Wandering Star

Acção.
Medo.
Reacção.
Qual?
Areias movediças.

sexta-feira, 18 de outubro de 2013

Fitter, Happier, More Productive

Escondes espaços entre modestas tentativas de arte; como uma tela ao contrário, não queres ser descoberta.
És um sabor indistinto, que depende dos dias, às vezes agradável ao palato. Outras só áspero. Pálido.
Alimentas discórdias em pensamentos antigos - suspiras, o ar agora é puro.
És a eterna indecisão do fio no alto do circo.
E o colchão lá em baixo.
Despertas lúxuria e emanas cautela.
És a antítese que me provoca nas pessoas, a antítese que inflama tudo em mim, que desperta a vontade de me desanimar com o próximo, ou descobrir o bem e o mal em todos.
Agradas-me, e esta conclusão não é final.

terça-feira, 15 de outubro de 2013

...a garrafa vazia de manuel maria...

No fundo da minha garrafa está o vidro baço e molhado. gritos de infante, dentes a nascer. estão seres quebradiços, cera mal seca, dobrados sobre si, num grito que os joelhos abafam, lágrimas secas pela noite. está um futuro de crise. e por isso a bebo. para que lá esteja tudo isto, e não em mim.
No fundo da minha garrafa está outra. até à última moeda do bolso ou pormenor de consciência. até os casais felizes partilharem somente o silêncio. e a derradeira uva rebentar, suculenta.
Pano de fundo, a música ironicamente dedilhada em sol, quadros - antes cópias - bom gosto que se compra em cadeia, a vida em comunidade, dois dedos de conversa e a ficção do anonimato deitado em pétalas. de flores. de qualquer coisa bela.
E o meu ar morto, em contraste, rápido em movimentos cíclicos: pega, bebe, pousa, fuma. quatro passos. um fim.
o dia acaba.
 escritos rasgados. aerofagia.

segunda-feira, 14 de outubro de 2013

Doce

Folheando albuns, ver-te-ia, doce.
Sardas de canela na tua cara, um sorriso especial,
verões analógicos que suspiro não poder ter.

E sempre em nós a calma do mundo.
Coisas que passaram por já terem deixado de ser.
Mas duetos inesquecíveis,
tangos efervescentes
tu em mim,
eu em ti,
desvanecidos
copo d'água.
Meio-cheio.
Quase cheio.

Transbordou.

terça-feira, 8 de outubro de 2013

Blinds closed, four empty corners.

Amorfo.

Deitado
solidão à espera
vela na mesa
cabeça latejante
de dormir.

Acordar
para suplicar
novo sonho.

Catorze horas
em que o nada
é melhor que tudo.

Persianas fechadas
e quatro
cantos
vazios
no escuro
no mundo
na calma
no quarto.

Exijo
hibernação eterna.

Youth Novel

Farto de beber palavras e segundos de quase-amor.
Lábios que observo, formas geometricas atraentes.
olho-te: murmuras afecto...
não quero ser
brinquedo estragado
nas mãos de uma jogadora emocional.

A água ferve
a mão teme
quando devia mergulhar.

sobra um dia desfeito
e tempo para limpar o chão.