"Estávamos entre dois copos, e eu não te conhecia, só achei que tinha de ser sorte estares sozinha. Pá, lá comecei a falar, não não me lembro muito bem do quê, sei que chegou a altura de pedir mais duas. Paguei, como o meu irmão me ensinou. Ele disse-me que era bom começar assim, e que os homens andavam sempre do lado da estrada. Foi mais por hábito do que por outra coisa, estás a ver? Então agradeceste-me - não rias!- e lembraste-me que um puto não podia pagar uma bebida tão à descarada. Tu ainda não sabias, mas eu estava mesmo a prever isso quando te respondi, e deve ter corrido bem, porque lá foste falando comigo, apesar de todas as dicas que já deves ter ouvido nos bares. Eh pá, e tu sais-te com a conversa das Ficções do Borges e a partir daí não podia parar mesmo que quisesse."
"Ah, então foi assim que acabámos aqui. Pois, percebo. Olha, foi muito bom, mas se calhar ficamos por aqui. Já são umas três, ou assim, e amanhã trabalho..."
"A gente vê-se pelo bar então."
"É isso. Assim não conversamos logo tudo."
"Foi giro. Talvez estar com um puto não seja assim tão mau, de vez em quando."
"(risos) Talvez não, talvez não..."
"Vá, beijinho"
"Vá..."
don't go and lose your face/ at some stranger's place / and don't forget to breathe / and pay before you leave / lay me down to crawl
sexta-feira, 7 de março de 2014
quarta-feira, 5 de março de 2014
Viagens - 1
Eu cabia sentado num muro, léguas à vista, num daqueles dias onde parece que amanhã é segunda.
Tinha o calor de um prado deitado à minha frente. Areia morta aos meus olhos no fio da distância. Estava sol, mas não dilacerante. Apenas o sol bom de que me recordo noutros dias. O feno soprado pelo vento, quase como se duas estações se unissem. Tinha o cantil de sobrevivência no colo. Sem ser necessário o confronto. Só a calma. Como se em breve fosse acordar e morresse um pouco. Esforçava-me para tentar não escravizar o momento com papel eterno. Está visto que falhei. Tinha de falhar. São pedaços incólumes que se perdem, mas que dignificamos no furto. Perde-se em originalidade, ganha-se no túnel de recordações arrependidas.
Senti que se o mundo fechasse um punho, soltava uma força benévola, como o assobio de alguém que te quer, uma mãe que te dá o pequeno-almoço. O pedaço inconsciente que aldraba a coerência.
Dois corpos não serviam de nada. Foi parte da corda-bamba da solidão desequilibrada no ponto certo. Foi necessário deixar em mim e não em nós.
À minha memória saltam histórias de outros, cariz semelhante, relatos diferentes. Gosto de ter uma.
Acabo-a com sentimentos contraditórios.
Deixa estar.
Tinha o calor de um prado deitado à minha frente. Areia morta aos meus olhos no fio da distância. Estava sol, mas não dilacerante. Apenas o sol bom de que me recordo noutros dias. O feno soprado pelo vento, quase como se duas estações se unissem. Tinha o cantil de sobrevivência no colo. Sem ser necessário o confronto. Só a calma. Como se em breve fosse acordar e morresse um pouco. Esforçava-me para tentar não escravizar o momento com papel eterno. Está visto que falhei. Tinha de falhar. São pedaços incólumes que se perdem, mas que dignificamos no furto. Perde-se em originalidade, ganha-se no túnel de recordações arrependidas.
Senti que se o mundo fechasse um punho, soltava uma força benévola, como o assobio de alguém que te quer, uma mãe que te dá o pequeno-almoço. O pedaço inconsciente que aldraba a coerência.
Dois corpos não serviam de nada. Foi parte da corda-bamba da solidão desequilibrada no ponto certo. Foi necessário deixar em mim e não em nós.
À minha memória saltam histórias de outros, cariz semelhante, relatos diferentes. Gosto de ter uma.
Acabo-a com sentimentos contraditórios.
Deixa estar.
quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014
João
És vida nos meus braços e vejo-te crescer.
Dos carros aos lápis de cera. No primeiro caracter.
Até pisar as folhas de Outono.
Dos carros aos lápis de cera. No primeiro caracter.
Até pisar as folhas de Outono.
quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014
Oceano
No desconforto do meu leito baloiçante, umas palavras, para acalmar a imensidão azul e a lua fria.
Ondulo na pureza da descoberta.
Amanhã posso morrer às mãos de uma língua que não conheço, e onde está a calma nisso?
A ideia de casa é nostálgica. Comigo vinte sobreviventes que pensam o mesmo. Quase todos deixaram a lucidez na costa anterior. No mar, qualquer mulher é a casa. Não te orgulhes, penso em todas no breu da noite.
Não minto.
Amanhã continuo o trabalho da Coroa que não nos resgata.
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quarta-feira, 29 de janeiro de 2014
"Des-ruptura"
Acordei a meio de uma discussão,
a soletrar o fim de uma frase,
de compaixão ausente.
As costas enfeitaram-me a visão,
de um ombro para o outro,
segundos permanentes.
corrente de braço,
elo.
Mãos que tocam para curar,
para não magoar.
Que nos unem
novamente.
"des-ruptura".
a soletrar o fim de uma frase,
de compaixão ausente.
As costas enfeitaram-me a visão,
de um ombro para o outro,
segundos permanentes.
corrente de braço,
elo.
Mãos que tocam para curar,
para não magoar.
Que nos unem
novamente.
"des-ruptura".
Moon
Dizendo como nada aquilo que fazia, o mais certo seria que provava whiskeys em Lisboa, isso não lhe tirava ninguém.
Faltava-lhe uma mão para por à volta de uma mulher prometida,
A pertença. Lar-edredão.
Talvez noites de íntima companhia,
lado feio na boca de preconceituosos, no entanto
real.
Palavras de e para algúém,
ausência de copo-reflexo,
música de dias bons,
música.
Tanto lhe faltava,
não a cevada,
uma cintura,
mas nunca a cevada,
nunca o cotovelo,
nunca a base,
nunca os balcões,
uma cintura.
sexta-feira, 24 de janeiro de 2014
saw it written and i saw it say
A cada doente, um poema enjaulado.
Não se pode ter quartos vazios em casas de pano.
Vejo que não me crês, pelo toque.
Lê-me uma história, quero ouvir a tua voz calculada, a vibração calma dos dias. Fazes-me sentir novo e sem fios.
Quando já não estiver aqui, quero festas a todo o momento, especiarias no ar. Sorrisos leves. Sorrisos impossíveis no agora, não caras impassivas do agora.
Vou escrever a minha lista de música para as caras vestidas de preto. Deixar a ironia no ar. Mudar os lençóis da minha pálida aparência, talvez usar um chapéu laranja.
Quero tudo o que não posso agora, para no fim não me beijar o esquecimento.
Tenho medo como suores frios. Medo do amor que não posso sentir.
Medo de deixar o que conheço e se arrasta no pavimento.
Só a ti te diria isto.
Não se pode ter quartos vazios em casas de pano.
Vejo que não me crês, pelo toque.
Lê-me uma história, quero ouvir a tua voz calculada, a vibração calma dos dias. Fazes-me sentir novo e sem fios.
Quando já não estiver aqui, quero festas a todo o momento, especiarias no ar. Sorrisos leves. Sorrisos impossíveis no agora, não caras impassivas do agora.
Vou escrever a minha lista de música para as caras vestidas de preto. Deixar a ironia no ar. Mudar os lençóis da minha pálida aparência, talvez usar um chapéu laranja.
Quero tudo o que não posso agora, para no fim não me beijar o esquecimento.
Tenho medo como suores frios. Medo do amor que não posso sentir.
Medo de deixar o que conheço e se arrasta no pavimento.
Só a ti te diria isto.
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quinta-feira, 23 de janeiro de 2014
Reikouzo
O lado da vida de quem planta maracujás no jardim é o lado da vida que não vais ter, crescendo no urbano mundo da cor que não muda.
O lado da vida de quem pendura retratos em paredes pintadas de fresco é o lado de quem perde pedaços e os cola à frente do mundo, a dor no afecto não pode ser repetida, melhor é a dor de falhar com a tinta.
Cada braço estendido um olho fechado. Cada copo pago, um número de guardanapo e sorrisos boémios.
Cada mundo de trabalho, uma esfera de impossíveis.
Séries, escritos e mau-olhado. Respiração celular. Paragem de autocarro.
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Borboletas
Para ele, só existiam dois tipos de pessoas no mundo: os que
tinham ouvido o “Samba pa Ti”, e os que não o tinham feito.
Ele admirava simples tons, pele aveludada, descia nos dedos
do mundo para sacos secos de feijão. Perdia o fôlego com amores no olhar,
pensava “à beleza da mulher”! Quando se enfrascava nos bares de Lisboa.
Carregava o som da música ao vivo em si. Os poros antecipavam todas as
sensações, beijos sonoros, carne trocada.
Era assim.
não tem de ser como se quer.
é só como se é...
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terça-feira, 14 de janeiro de 2014
Qualquer
de que servem as palavras belas?
A descrição de corpos, de sangue e vida pejada nos poetas da cidade em que tudo se vive na falta de ar. Os dias contados pela efemeridade, nostalgia, arrependimento de tinta gasta no papel.
De que serve uma carta que simula o toque e estende a distância e mata imagens?
Um olá, não saias da minha pessoa.
E quando tudo acaba?
Êxito. Foi. Passado.
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