A minha cabeça diz-me que não há deus, mas sinto que tem de haver alguém a culpar pelo azedume dos dias. Tenho a vida manchada por um síndrome de Paris, com ternura a mais para quem merece menos, são desperdícios de tinta no meu caderno e de sangue bombeado pelo meu coração.
Nasci branco e sem expressão, cresci até um confuso metro e oitenta de caos em lata semi-aberta, transbordo de mim, sem me prover de soluções, só de cardos. Nasci branco, sem expressão e desenhado especialmente para morrer no meu quarto.
don't go and lose your face/ at some stranger's place / and don't forget to breathe / and pay before you leave / lay me down to crawl
segunda-feira, 22 de setembro de 2014
quarta-feira, 17 de setembro de 2014
Saxofone
a humidade na madeira,
o teu sorriso como película de filme despido por um saxofone.
quinta-feira, 4 de setembro de 2014
Sofá
Chega, temível, um pensamento, enquanto me afogo na ternura sufocante do meu sofá.
É do amanhã, dessas terras que conheço a custo, que me mostram esta insuficiência renal e pobre desempenho.
Sim, vais morrer. E levar contigo uma longa lista de arrependimentos.
Mas pior, vais envelhecer antes disso.
Os dias colam-se. Um dia tem dois sóis.
É do amanhã, dessas terras que conheço a custo, que me mostram esta insuficiência renal e pobre desempenho.
Sim, vais morrer. E levar contigo uma longa lista de arrependimentos.
Mas pior, vais envelhecer antes disso.
Os dias colam-se. Um dia tem dois sóis.
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segunda-feira, 1 de setembro de 2014
Metáfora
Estás a uma metáfora de distância,
os olhos cheios de mim.
Se ao menos conseguisse respirar...
terça-feira, 29 de julho de 2014
Artemis
São seis da manhã,
em guerra com o bolso,
procuro o tabaco e pondero um café.
Pronto a afagar o monstro que mora no meu caderno,
até passar por uma,
duas
fotografias tuas,
e rabiscos de noites em que o amor molhava a sala.
E penso no teu delicado sentido de mau gosto,
nos nós morenos dos teus dedos,
na tua cara torcida em desilusão,
mil imagens que não posso revelar.
Faço o café para não perder este momento
de contemplação e memória,
nostalgia pouco adulta,
distante,
lá num canto,
um papel amachucado sobre a mesa de cabeceira.
Noutros tempos, saías-me do fígado.
Explica-me
esse processo longo de metamorfose
que te viu tornar em filme de domingo à tarde,
quando partiste de ansiolítico.
em guerra com o bolso,
procuro o tabaco e pondero um café.
Pronto a afagar o monstro que mora no meu caderno,
até passar por uma,
duas
fotografias tuas,
e rabiscos de noites em que o amor molhava a sala.
E penso no teu delicado sentido de mau gosto,
nos nós morenos dos teus dedos,
na tua cara torcida em desilusão,
mil imagens que não posso revelar.
Faço o café para não perder este momento
de contemplação e memória,
nostalgia pouco adulta,
distante,
lá num canto,
um papel amachucado sobre a mesa de cabeceira.
Noutros tempos, saías-me do fígado.
Explica-me
esse processo longo de metamorfose
que te viu tornar em filme de domingo à tarde,
quando partiste de ansiolítico.
sábado, 5 de julho de 2014
A-ko.
O Jorge não consegue dormir nas vésperas de exame, mas não percebe porquê. Após umas horas desiste, e olha pelas grades da janela do seu quarto, na procura do galo urbano que nunca conseguiu perceber onde existe. Quando canta, veste-se e sai de casa, os pés dançantes na monotonia do primeiro autocarro.
"Há algo de tocante no amarelo torrado da autoestrada com o sol".
O primeiro "bom dia" que lhe sai da garganta só encontra resposta no varrer ritmado de uma faculdade vazia. E o Jorge encurta a sua vida com um isqueiro.
Algumas páginas depois, e o caminho inverso, retorna ao seu quarto, onde as canetas moram frias e um jogo ainda não foi resolvido. Ouve as mesmas frases de uma mãe feliz, mas viciada na sua depressão, que envelhece sem dar conta. O cabelo branco de há dois anos multiplica-se, silenciosamente.
E, no seu quarto, o Jorge escreve textos.
Depois deita-se, e chora um pouco.
sexta-feira, 27 de junho de 2014
Silla
São histórias belas, no culto de um pacto sangrento, em que do fraquejar dos dedos se faz a morte floral, pétala a pétala, como a soltar o último grito da primavera. No romper de um abraço.
Ao dobrar a esquina, decoro-te a sombra permitida pelos candeeiros na noite. Nem o vinho, nem o pedaço de alma que te parti morrem hoje.
Mal vejo a hora que deixe outra silhueta ocupar aquele canto poeirento do meu armário. Numa lamela para análise, reparo os demónios no detalhe, sinto os perigos na amostra. Revelam-se inconsequentes.
Sei que vou morrer amarelo, sei disso. Ou a zelar por ti do outro lado da estrada.
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quarta-feira, 18 de junho de 2014
Morning Bell
a insónia vaporiza oceanos, na ondulação dos corpos agitados. quatro paredes, uma voz, a falar baixinho. de repente, ar frio, como sino matinal. café, cara lavada, olhos em sangue. a última gota de normalidade cai dormente, cérebro dormente, nas fendas da calçada. é o metro, é o dia frio, é mudo, é tudo tão d-e-s-e-s-p-e-r-a-d-a-m-e-n-t-e opaco.
.
..
...
Um esforço sobre-humano para a fotossíntese. funções onomatopaicas.
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terça-feira, 17 de junho de 2014
rock bottom riser
Eu sei que estamos preocupados,
mas não me fales em revolução.
Não aqui,
nesta nuvem alcoólica,
segunda estrela à direita,
e em frente até de manhã.
Deixa-me estar aqui no escuro
do bar, e ouvir este folk quase deprimente,
depois rir sobre isso.
Dizer merda, só porque sim
e ignorar o telemóvel
e enganar a normalidade
que me obriga a deitar cedo.
Tropeçar no caminho para casa,
obcecado com o passeio,
cândido,
e um ombro quente para dar ao mundo.
mas não me fales em revolução.
Não aqui,
nesta nuvem alcoólica,
segunda estrela à direita,
e em frente até de manhã.
Deixa-me estar aqui no escuro
do bar, e ouvir este folk quase deprimente,
depois rir sobre isso.
Dizer merda, só porque sim
e ignorar o telemóvel
e enganar a normalidade
que me obriga a deitar cedo.
Tropeçar no caminho para casa,
obcecado com o passeio,
cândido,
e um ombro quente para dar ao mundo.
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