quarta-feira, 1 de outubro de 2014

Irish Pub

Lembro-me que voltava de um dia no Hospital, o mundo já estava deitado, agarrado aos joelhos, para ir ter ao restaurante com o meu irmão, quando me tropeças com estórias de pôr-do-sol em estrada aberta, o teu Tom nos ouvidos.
Foste vítima de um infame truque que uso com frequência. Perdoa-me a travessura. Acontece às melhores. Aliás, acho que nem foste vítima. Viste-o a quilómetros e imitaste princesas de filmes infantis, donzelas em desespero com olhos na nuca, o príncipe mata dragões.
Eu tenho o meu encanto, desde que não haja silêncio.
foi o s(hh)ilêncio que nos matou, e motivou a tua sentença.
Mas pensar que fomos internacionais juntos, por horas! E na sensatez da tua voz.
Tudo me acalma e canta canções de embalar à nossa(?) história.

Pertencer

There is comedy, and tragedy, but we're neither.

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Abro livros de um dia, pronto a colaborar nesta coisa entusiasmante que é o pertencer (dicionário das emoções), coisa tão real, feita de heróis televisivos. Histórias de sucesso.
Tenho a dizer que ao menos me amam o carácter, compreensivo - sem "eu" - amam-me a palavra que de rompante brota e descansa olhos baços e ombros baloiçantes, disso sei, disso sei. Que me chega de ti um "sim" carregado de confiança reluzente, mas de tons adocicados, paternais - acompanhadas de um rodar de saia - que se reservam aos cantos de nós, que lá moramos.
Apreciam-me o vocabulário para sensibilizar.
O pertencer é uma tentativa de agir no sentido do que espero, sem chegar lá. Pertenço-te, pertences-me. Mas só quando as letras te alcoolizam, e nunca no meu registo. De poças a oceanos.

segunda-feira, 22 de setembro de 2014

#338


É tarde, tão tarde que o dia ameaça.
E eu até tinha escrito umas linhas
sobre ti
e outras coisas que não interessam
porque nunca mais vou escrever sobre isso,
nem sobre ti.

Gostava de dizer que foi a responsabilidade que me acordou,
amanhã,
mas sou só eu, teimoso,
destinado a ultrapassar-te
e claro,
a fumar um cigarro.

Anta

A minha cabeça diz-me que não há deus, mas sinto que tem de haver alguém a culpar pelo azedume dos dias. Tenho a vida manchada por um síndrome de Paris, com ternura a mais para quem merece menos, são desperdícios de tinta no meu caderno e de sangue bombeado pelo meu coração.
Nasci branco e sem expressão, cresci até um confuso metro e oitenta de caos em lata semi-aberta, transbordo de mim, sem me prover de soluções, só de cardos. Nasci branco, sem expressão e desenhado especialmente para morrer no meu quarto.

quarta-feira, 17 de setembro de 2014

Saxofone

A sombra da minha bebida,
a humidade na madeira,
o teu sorriso como película de filme despido por um saxofone.

quinta-feira, 4 de setembro de 2014

Sofá

Chega, temível, um pensamento, enquanto me afogo na ternura sufocante do meu sofá.
É do amanhã, dessas terras que conheço a custo, que me mostram esta insuficiência renal e pobre desempenho.
Sim, vais morrer. E levar contigo uma longa lista de arrependimentos.
Mas pior, vais envelhecer antes disso.
Os dias colam-se. Um dia tem dois sóis.

segunda-feira, 1 de setembro de 2014

terça-feira, 29 de julho de 2014

Artemis

São seis da manhã,
em guerra com o bolso,
procuro o tabaco e pondero um café.
Pronto a afagar o monstro que mora no meu caderno,
até passar por uma,
duas
fotografias tuas,
e rabiscos de noites em que o amor molhava a sala.
E penso no teu delicado sentido de mau gosto,
nos nós morenos dos teus dedos,
na tua cara torcida em desilusão,
mil imagens que não posso revelar.
Faço o café para não perder este momento
de contemplação e memória,
nostalgia pouco adulta,
distante,
lá num canto,
um papel amachucado sobre a mesa de cabeceira.
Noutros tempos, saías-me do fígado.
Explica-me
esse processo longo de metamorfose
que te viu tornar em filme de domingo à tarde,
quando partiste de ansiolítico.

terça-feira, 22 de julho de 2014

um brinde a todos os olhos na rua que cortam como papel.

sábado, 5 de julho de 2014

A-ko.

O Jorge não consegue dormir nas vésperas de exame, mas não percebe porquê. Após umas horas desiste, e olha pelas grades da janela do seu quarto, na procura do galo urbano que nunca conseguiu perceber onde existe. Quando canta, veste-se e sai de casa, os pés dançantes na monotonia do primeiro autocarro.
"Há algo de tocante no amarelo torrado da autoestrada com o sol".
O primeiro "bom dia" que lhe sai da garganta só encontra resposta no varrer ritmado de uma faculdade vazia. E o Jorge encurta a sua vida com um isqueiro.
Algumas páginas depois, e o caminho inverso, retorna ao seu quarto, onde as canetas moram frias e um jogo ainda não foi resolvido. Ouve as mesmas frases de uma mãe feliz, mas viciada na sua depressão, que envelhece sem dar conta. O cabelo branco de há dois anos multiplica-se, silenciosamente.
E, no seu quarto, o Jorge escreve textos.
Depois deita-se, e chora um pouco.