terça-feira, 11 de novembro de 2014

Nos Buracos

Acordo mal descansado,
naquele momento em que o dia se faz dia.
som de fundo irrompe no transe das nuvens.
Dormi por horas na minha casa, a terra minha cama.
No risco de um isqueiro,
no frio de um buraco,
cavado por corpos agora frios.
Assobios.
Noutro tempo diria que eram pássaros,
hoje é metal incandescente.
Alguém fala alto e sinto as chapas no peito,
a sujidade nas mãos.
Há sangue. Não é o dos meus cortes superficiais, é o sangue profundo, de membros,
de alma.
"Dá-me um cigarro". Chega o cigarro amarrotado. Há poucos.
Como se não te deixassem morrer aos poucos.
Inspiro. Expiro.
Não há homens.
Há nostalgia.
Há memória.
Há tudo
menos homens, nos buracos.

quarta-feira, 29 de outubro de 2014

#345

Arrastas os fios como te levaria ao altar,
o jogo das pestanas sem sentido distorce-te o sorriso,
o ar empurra-te para a cadeira paliativa.

Quando andaste não o sentiste,
mas arrastaste a Terra contigo
e com ela toda a sabedoria antiga,
a natureza,
o zodíaco,
o desenho celeste no teu cobertor fiel.

Brevemente
viriam os sons,
as onomatopeias,
os ditongos,
as cores e as histórias.

Para venda:
sapatos,
tamanho 25,
nunca usados.

morfeu

como se estivéssemos sós num quarto,
e houvesse um copo de veneno a meio.

quarta-feira, 1 de outubro de 2014

Irish Pub

Lembro-me que voltava de um dia no Hospital, o mundo já estava deitado, agarrado aos joelhos, para ir ter ao restaurante com o meu irmão, quando me tropeças com estórias de pôr-do-sol em estrada aberta, o teu Tom nos ouvidos.
Foste vítima de um infame truque que uso com frequência. Perdoa-me a travessura. Acontece às melhores. Aliás, acho que nem foste vítima. Viste-o a quilómetros e imitaste princesas de filmes infantis, donzelas em desespero com olhos na nuca, o príncipe mata dragões.
Eu tenho o meu encanto, desde que não haja silêncio.
foi o s(hh)ilêncio que nos matou, e motivou a tua sentença.
Mas pensar que fomos internacionais juntos, por horas! E na sensatez da tua voz.
Tudo me acalma e canta canções de embalar à nossa(?) história.

Pertencer

There is comedy, and tragedy, but we're neither.

--------------------------------------------------------------------

Abro livros de um dia, pronto a colaborar nesta coisa entusiasmante que é o pertencer (dicionário das emoções), coisa tão real, feita de heróis televisivos. Histórias de sucesso.
Tenho a dizer que ao menos me amam o carácter, compreensivo - sem "eu" - amam-me a palavra que de rompante brota e descansa olhos baços e ombros baloiçantes, disso sei, disso sei. Que me chega de ti um "sim" carregado de confiança reluzente, mas de tons adocicados, paternais - acompanhadas de um rodar de saia - que se reservam aos cantos de nós, que lá moramos.
Apreciam-me o vocabulário para sensibilizar.
O pertencer é uma tentativa de agir no sentido do que espero, sem chegar lá. Pertenço-te, pertences-me. Mas só quando as letras te alcoolizam, e nunca no meu registo. De poças a oceanos.

segunda-feira, 22 de setembro de 2014

#338


É tarde, tão tarde que o dia ameaça.
E eu até tinha escrito umas linhas
sobre ti
e outras coisas que não interessam
porque nunca mais vou escrever sobre isso,
nem sobre ti.

Gostava de dizer que foi a responsabilidade que me acordou,
amanhã,
mas sou só eu, teimoso,
destinado a ultrapassar-te
e claro,
a fumar um cigarro.

Anta

A minha cabeça diz-me que não há deus, mas sinto que tem de haver alguém a culpar pelo azedume dos dias. Tenho a vida manchada por um síndrome de Paris, com ternura a mais para quem merece menos, são desperdícios de tinta no meu caderno e de sangue bombeado pelo meu coração.
Nasci branco e sem expressão, cresci até um confuso metro e oitenta de caos em lata semi-aberta, transbordo de mim, sem me prover de soluções, só de cardos. Nasci branco, sem expressão e desenhado especialmente para morrer no meu quarto.

quarta-feira, 17 de setembro de 2014

Saxofone

A sombra da minha bebida,
a humidade na madeira,
o teu sorriso como película de filme despido por um saxofone.

quinta-feira, 4 de setembro de 2014

Sofá

Chega, temível, um pensamento, enquanto me afogo na ternura sufocante do meu sofá.
É do amanhã, dessas terras que conheço a custo, que me mostram esta insuficiência renal e pobre desempenho.
Sim, vais morrer. E levar contigo uma longa lista de arrependimentos.
Mas pior, vais envelhecer antes disso.
Os dias colam-se. Um dia tem dois sóis.

segunda-feira, 1 de setembro de 2014