domingo, 22 de fevereiro de 2015

count your coins and throw them over my shoulder

"não quero"
e dois comprimidos (que são vinte, mas shhh) deslizam
na garganta,
sabor a frutos exóticos e
a lar longe de lar: o mundo afogado,
confortos vazios.
Estou a 9 milimetros de mim, olho
de cima. Afago a minha cara:
"mereces."
De repente, pânico.
O horror, o meu pai espojado
sobre o mogno frio
da minha caixa num lugar
sem cor,
o meu irmão,
olhar louco,
o desgaste,
a imagem de si comigo ao colo,
a minha mãe - tão longe daqui "o meu pai?",
pergunta repetida.

Volto de susto,
agarro o maxilar que afagava.

Vómito.
Azia.
Dorme, Miguel.
Amanhã é dia.


quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

#354

a outra voz que mora aqui enuncia estes vocábulos, claramente:

não tenho espaço na aorta - ou
no sistema nervoso central, por falar nisso -
para o arrepio que brota da nuca
como resina de uma árvore madura.

a minha responde:

não tenho espaço na aorta - ou 
no sistema nervoso central, por falar nisso -
para a dormência das minhas pernas,
nem para virar as costas ao fogo
quando é tão bom arder.

domingo, 1 de fevereiro de 2015

#353

fazer as coisas desta forma não vale. trazer ânimo aos ramos desfeitos na lareira, enganando a desidratação com o álcool. não vale se não for a sério.
não nascemos todos para deixar linhas que aquecem por dentro. às vezes uma ou outra despontam do horizonte desolado, mas continua a não haver água e a sentir-se o cheiro a sal. continua a segurança de que sou o que sou e pouco há a fazer acerca disso. de que os dias passam como agulhas.
é verborreia,
não preciso de balões a ilustrar as mentes
de personagens desenhadas na minha cabeça.
Nem a que sou no meu quarto,
Nem a que invento em autocarros.

São heterónimos do anonimato,
só heterónimos do anonimato,
são o pudor das causas perdidas.

não quero perder pedaços
de mim
para que desvaneçam em duas metades de um só corpo.

domingo, 21 de dezembro de 2014

La Viguela

´
Aqui me pongo a cantar
Al compás de la viguela,
Que el hombre que lo desvela
Una pena estraordinaria
Como el ave solitaria
Con el cantar se consuela.




Se dos passos se sentem os deuses, estejam eles onde estiverem, e para todos o mundo for manso como como as riscas da calçada, o fundo do mar é apenas no fundo.
A cada um de nós é dada essa perene sensação de quem canta. Sobretudo a quem se traduz nos becos das suas cidades.
Noutro dia não vai haver esse musgo no chão, nem os sotaques da comunidade pelo ar. É sempre melhor pensar no anonimato como um pardal nos quiosques. É essa a história da vida de quem se dissolve. Não vejo o mal nisso, não vejo a pele irritada das lágrimas secas, nem o nariz vermelho ou as pressões sobre a têmpora.
Pensem nisso como um quadro branco com as texturas de uma frase que só se consegue ler com luz negra. É inevitável que quem o note se sinta particularmente sensível aos acasos da continuidade estelar que teima em oferecer-nos músicas em que já estávamos a pensar antes de, à primeira estação sintonizada, a ouvirmos ser reproduzida. Outro exemplo disso mesmo é a pessoa que ocupa os nossos pensamentos invadir a caixa de mensagens com o "bom dia" dos dias frios, mas bons.
Nesse sentido, uma passada calma e o olhar devem ser apreciados como se de desabrochares perfeitos se tratassem. Uma segunda vez isto não se passará e poderá depender do humor com que se acorda ou do primeiro inspirar da manhã. As sensações perenes que que falava são como vultos e têm pernas lestas, que muitas vezes desaguam em rios pesados de correntes independentes.
Prometo que me deixas hoje desfeito como num delta se virares à esquerda e evitares esta rua.

sábado, 29 de novembro de 2014

toq-bor-neh

É tarde, Maria. Consigo vê-lo nos candeeiros de auto-estrada, banham-me os cortinados por entre o som desgarrado das máquinas no último esforço diário.
 Por esta hora estaríamos entre séries, feitos em trança no sofá, e eu disfarçava os olhos esbugalhados de criança na curiosidade dos teus pés nus. Sempre que me reparavas, fingias não notar que eu fingia não notar, mantendo a beleza rocambolesca de uma função indecifrável. Gostava de subir as mãos pelas tuas calças de andar por casa, fato-treino, o tecido tão elegante como o gesto, dedilhando como numa harpa do tornozelo ao gémeo, dedos como segredos que só amantes sussurram, rota assente na terra do nunca. O fim, não havia realmente fim. 
Era tudo de um idealismo tolo que partilhamos, fruto daquilo que é a nossa sina perpendicular. Sei que com os anos a espontaneidade se iria, como é usual. E acho que teríamos lidado bem com o silêncio de quem se experimenta por várias luas. Seríamos bons a interpretá-lo de uma forma cinematográfica. Encontraríamos o interessante nisso, "o bicho só está lá porque a maçã é boa".
Os meses passariam, e consigo a sensação de tudo aquilo que não volta porque é tudo uma desilusão constante, no sentido em que nos deixamos de enganar sobre o que temos e o que poderíamos ter. Os olhos que se cruzavam com as pessoas na rua deixavam de ter o significado das nossas adolescências, morriam no fugaz momento de sensualidade. O momento em si seria importante, mas mais importante era o regresso. Quantas pessoas não sonham com o regresso que nós teríamos?

terça-feira, 11 de novembro de 2014

Nos Buracos

Acordo mal descansado,
naquele momento em que o dia se faz dia.
som de fundo irrompe no transe das nuvens.
Dormi por horas na minha casa, a terra minha cama.
No risco de um isqueiro,
no frio de um buraco,
cavado por corpos agora frios.
Assobios.
Noutro tempo diria que eram pássaros,
hoje é metal incandescente.
Alguém fala alto e sinto as chapas no peito,
a sujidade nas mãos.
Há sangue. Não é o dos meus cortes superficiais, é o sangue profundo, de membros,
de alma.
"Dá-me um cigarro". Chega o cigarro amarrotado. Há poucos.
Como se não te deixassem morrer aos poucos.
Inspiro. Expiro.
Não há homens.
Há nostalgia.
Há memória.
Há tudo
menos homens, nos buracos.

quarta-feira, 29 de outubro de 2014

#345

Arrastas os fios como te levaria ao altar,
o jogo das pestanas sem sentido distorce-te o sorriso,
o ar empurra-te para a cadeira paliativa.

Quando andaste não o sentiste,
mas arrastaste a Terra contigo
e com ela toda a sabedoria antiga,
a natureza,
o zodíaco,
o desenho celeste no teu cobertor fiel.

Brevemente
viriam os sons,
as onomatopeias,
os ditongos,
as cores e as histórias.

Para venda:
sapatos,
tamanho 25,
nunca usados.

morfeu

como se estivéssemos sós num quarto,
e houvesse um copo de veneno a meio.

quarta-feira, 1 de outubro de 2014

Irish Pub

Lembro-me que voltava de um dia no Hospital, o mundo já estava deitado, agarrado aos joelhos, para ir ter ao restaurante com o meu irmão, quando me tropeças com estórias de pôr-do-sol em estrada aberta, o teu Tom nos ouvidos.
Foste vítima de um infame truque que uso com frequência. Perdoa-me a travessura. Acontece às melhores. Aliás, acho que nem foste vítima. Viste-o a quilómetros e imitaste princesas de filmes infantis, donzelas em desespero com olhos na nuca, o príncipe mata dragões.
Eu tenho o meu encanto, desde que não haja silêncio.
foi o s(hh)ilêncio que nos matou, e motivou a tua sentença.
Mas pensar que fomos internacionais juntos, por horas! E na sensatez da tua voz.
Tudo me acalma e canta canções de embalar à nossa(?) história.

Pertencer

There is comedy, and tragedy, but we're neither.

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Abro livros de um dia, pronto a colaborar nesta coisa entusiasmante que é o pertencer (dicionário das emoções), coisa tão real, feita de heróis televisivos. Histórias de sucesso.
Tenho a dizer que ao menos me amam o carácter, compreensivo - sem "eu" - amam-me a palavra que de rompante brota e descansa olhos baços e ombros baloiçantes, disso sei, disso sei. Que me chega de ti um "sim" carregado de confiança reluzente, mas de tons adocicados, paternais - acompanhadas de um rodar de saia - que se reservam aos cantos de nós, que lá moramos.
Apreciam-me o vocabulário para sensibilizar.
O pertencer é uma tentativa de agir no sentido do que espero, sem chegar lá. Pertenço-te, pertences-me. Mas só quando as letras te alcoolizam, e nunca no meu registo. De poças a oceanos.

segunda-feira, 22 de setembro de 2014

#338


É tarde, tão tarde que o dia ameaça.
E eu até tinha escrito umas linhas
sobre ti
e outras coisas que não interessam
porque nunca mais vou escrever sobre isso,
nem sobre ti.

Gostava de dizer que foi a responsabilidade que me acordou,
amanhã,
mas sou só eu, teimoso,
destinado a ultrapassar-te
e claro,
a fumar um cigarro.

Anta

A minha cabeça diz-me que não há deus, mas sinto que tem de haver alguém a culpar pelo azedume dos dias. Tenho a vida manchada por um síndrome de Paris, com ternura a mais para quem merece menos, são desperdícios de tinta no meu caderno e de sangue bombeado pelo meu coração.
Nasci branco e sem expressão, cresci até um confuso metro e oitenta de caos em lata semi-aberta, transbordo de mim, sem me prover de soluções, só de cardos. Nasci branco, sem expressão e desenhado especialmente para morrer no meu quarto.

quarta-feira, 17 de setembro de 2014

Saxofone

A sombra da minha bebida,
a humidade na madeira,
o teu sorriso como película de filme despido por um saxofone.

quinta-feira, 4 de setembro de 2014

Sofá

Chega, temível, um pensamento, enquanto me afogo na ternura sufocante do meu sofá.
É do amanhã, dessas terras que conheço a custo, que me mostram esta insuficiência renal e pobre desempenho.
Sim, vais morrer. E levar contigo uma longa lista de arrependimentos.
Mas pior, vais envelhecer antes disso.
Os dias colam-se. Um dia tem dois sóis.

segunda-feira, 1 de setembro de 2014

terça-feira, 29 de julho de 2014

Artemis

São seis da manhã,
em guerra com o bolso,
procuro o tabaco e pondero um café.
Pronto a afagar o monstro que mora no meu caderno,
até passar por uma,
duas
fotografias tuas,
e rabiscos de noites em que o amor molhava a sala.
E penso no teu delicado sentido de mau gosto,
nos nós morenos dos teus dedos,
na tua cara torcida em desilusão,
mil imagens que não posso revelar.
Faço o café para não perder este momento
de contemplação e memória,
nostalgia pouco adulta,
distante,
lá num canto,
um papel amachucado sobre a mesa de cabeceira.
Noutros tempos, saías-me do fígado.
Explica-me
esse processo longo de metamorfose
que te viu tornar em filme de domingo à tarde,
quando partiste de ansiolítico.

terça-feira, 22 de julho de 2014

um brinde a todos os olhos na rua que cortam como papel.

sábado, 5 de julho de 2014

A-ko.

O Jorge não consegue dormir nas vésperas de exame, mas não percebe porquê. Após umas horas desiste, e olha pelas grades da janela do seu quarto, na procura do galo urbano que nunca conseguiu perceber onde existe. Quando canta, veste-se e sai de casa, os pés dançantes na monotonia do primeiro autocarro.
"Há algo de tocante no amarelo torrado da autoestrada com o sol".
O primeiro "bom dia" que lhe sai da garganta só encontra resposta no varrer ritmado de uma faculdade vazia. E o Jorge encurta a sua vida com um isqueiro.
Algumas páginas depois, e o caminho inverso, retorna ao seu quarto, onde as canetas moram frias e um jogo ainda não foi resolvido. Ouve as mesmas frases de uma mãe feliz, mas viciada na sua depressão, que envelhece sem dar conta. O cabelo branco de há dois anos multiplica-se, silenciosamente.
E, no seu quarto, o Jorge escreve textos.
Depois deita-se, e chora um pouco.

sexta-feira, 27 de junho de 2014

Silla

São histórias belas, no culto de um pacto sangrento, em que do fraquejar dos dedos se faz a morte floral, pétala a pétala, como a soltar o último grito da primavera. No romper de um abraço.
Ao dobrar a esquina, decoro-te a sombra permitida pelos candeeiros na noite. Nem o vinho, nem o pedaço de alma que te parti morrem hoje.
Mal vejo a hora que deixe outra silhueta ocupar aquele canto poeirento do meu armário. Numa lamela para análise, reparo os demónios no detalhe, sinto os perigos na amostra. Revelam-se inconsequentes.
Sei que vou morrer amarelo, sei disso. Ou a zelar por ti do outro lado da estrada.