terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

iron lung

bastaram dois engodos de língua para me derreteres na tua boca. nada foi melhor. nada é melhor.
nada é tão livre como cair dentro de ti, e esperar os teus braços. as tuas pernas à minha volta.
somos felizes no dia ocupado, no dia triste,  no dia belo. no dia em que dos nossos lábios se esgueira a boa noite. somos felizes com o toque doce no ombro que nos envolve de manhã e no abraço dócil dos lençóis, quando nos adormecemos a quilómetros. descobrimos a pólvora. usamo-la como fogo de artifício e voamos perto do sol. como podemos virar as costas? como podemos viver sem respirar? somo-nos cúmplices, estranhos, estrangeiros e amantes, tudo de uma vez. somo-nos nós, gemo-to dentro do ouvido e da boca.
somos tão bem...

hoje volto aqui para te mostrar que somos feitos do pó das estrelas e que nada desaparece. Por isso sai, vai à rua, desliza na calçada...
hoje o dia é teu, deixa ser verde.

pierrot

Não consigo deixar de imaginar que estou outra vez naquele recanto de uma quinta, suores ansiosos repelem o brilho do sol e a doce brisa, no melhor dia de Agosto.
São códigos que não percebo, esses do toque amargo; não sei o que é deslizar os dedos para além da pureza incauta, não sei, peço desculpa, não quero saber. Não me obrigues. É Agosto, por favor não.
Amarra-me o peso do silêncio. Acabaste e puseste-me os dedos nos lábios. Olhaste-me do mais doce que os monstros conseguem. Doce possessivo. Vergonha nos dedos. Senti-os tremer.
Voltei a casa e tudo soava a asfalto na bicicleta. A ocasional borracha que se debate com o piso. Tempo de deixar estes minutos debaixo de um cobertor.
...
..
.

domingo, 22 de fevereiro de 2015

smog

Tenho um amigo, na realidade um amigo que por dissabores se tornou relâmpago, que disfarça as loucuras por baixo de nenúfares em flor, ou mais até como pato num lago. Tudo calmo à superfície, enquanto as patas desenvolvem um festival frenético, capaz de separar moléculas e reverter água para hidrogénio.
Ele mente. Copiosa e fantasticamente. Quando outros nele vêem apenas uma sequência aleatória de factos comprovadamente passíveis de rejeição, eu vejo a mente de uma criança que ainda o é, de vívida imaginação e detalhes que trazem lágrimas aos olhos. A sua mãe é professora, contudo não há um livro à vista nas suas estantes em casa. O pai era agente de uma qualquer força armada, mas trabalha num aeroporto em Bruxelas. Este tipo de coisa.
Não o via há dois meses. Não lhe falava longamente há ano e tal.
Hoje redescobri o susto que é crescer desamparado. Tenho medo, mãe. Envolve os teus braços nesta fraca estrutura óssea até quebrar. Tolda-me os sentidos para não me esconder do mundo, e oferece-me a imagem dos adultos que têm de sorrir para que os filhos anseiem o pagamento de impostos.
Deixaste-me em 2007 e nunca esteve tanto frio em casa.


count your coins and throw them over my shoulder

"não quero"
e dois comprimidos (que são vinte, mas shhh) deslizam
na garganta,
sabor a frutos exóticos e
a lar longe de lar: o mundo afogado,
confortos vazios.
Estou a 9 milimetros de mim, olho
de cima. Afago a minha cara:
"mereces."
De repente, pânico.
O horror, o meu pai espojado
sobre o mogno frio
da minha caixa num lugar
sem cor,
o meu irmão,
olhar louco,
o desgaste,
a imagem de si comigo ao colo,
a minha mãe - tão longe daqui "o meu pai?",
pergunta repetida.

Volto de susto,
agarro o maxilar que afagava.

Vómito.
Azia.
Dorme, Miguel.
Amanhã é dia.


quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

#354

a outra voz que mora aqui enuncia estes vocábulos, claramente:

não tenho espaço na aorta - ou
no sistema nervoso central, por falar nisso -
para o arrepio que brota da nuca
como resina de uma árvore madura.

a minha responde:

não tenho espaço na aorta - ou 
no sistema nervoso central, por falar nisso -
para a dormência das minhas pernas,
nem para virar as costas ao fogo
quando é tão bom arder.

domingo, 1 de fevereiro de 2015

#353

fazer as coisas desta forma não vale. trazer ânimo aos ramos desfeitos na lareira, enganando a desidratação com o álcool. não vale se não for a sério.
não nascemos todos para deixar linhas que aquecem por dentro. às vezes uma ou outra despontam do horizonte desolado, mas continua a não haver água e a sentir-se o cheiro a sal. continua a segurança de que sou o que sou e pouco há a fazer acerca disso. de que os dias passam como agulhas.
é verborreia,
não preciso de balões a ilustrar as mentes
de personagens desenhadas na minha cabeça.
Nem a que sou no meu quarto,
Nem a que invento em autocarros.

São heterónimos do anonimato,
só heterónimos do anonimato,
são o pudor das causas perdidas.

não quero perder pedaços
de mim
para que desvaneçam em duas metades de um só corpo.

domingo, 21 de dezembro de 2014

La Viguela

´
Aqui me pongo a cantar
Al compás de la viguela,
Que el hombre que lo desvela
Una pena estraordinaria
Como el ave solitaria
Con el cantar se consuela.




Se dos passos se sentem os deuses, estejam eles onde estiverem, e para todos o mundo for manso como como as riscas da calçada, o fundo do mar é apenas no fundo.
A cada um de nós é dada essa perene sensação de quem canta. Sobretudo a quem se traduz nos becos das suas cidades.
Noutro dia não vai haver esse musgo no chão, nem os sotaques da comunidade pelo ar. É sempre melhor pensar no anonimato como um pardal nos quiosques. É essa a história da vida de quem se dissolve. Não vejo o mal nisso, não vejo a pele irritada das lágrimas secas, nem o nariz vermelho ou as pressões sobre a têmpora.
Pensem nisso como um quadro branco com as texturas de uma frase que só se consegue ler com luz negra. É inevitável que quem o note se sinta particularmente sensível aos acasos da continuidade estelar que teima em oferecer-nos músicas em que já estávamos a pensar antes de, à primeira estação sintonizada, a ouvirmos ser reproduzida. Outro exemplo disso mesmo é a pessoa que ocupa os nossos pensamentos invadir a caixa de mensagens com o "bom dia" dos dias frios, mas bons.
Nesse sentido, uma passada calma e o olhar devem ser apreciados como se de desabrochares perfeitos se tratassem. Uma segunda vez isto não se passará e poderá depender do humor com que se acorda ou do primeiro inspirar da manhã. As sensações perenes que que falava são como vultos e têm pernas lestas, que muitas vezes desaguam em rios pesados de correntes independentes.
Prometo que me deixas hoje desfeito como num delta se virares à esquerda e evitares esta rua.

sábado, 29 de novembro de 2014

toq-bor-neh

É tarde, Maria. Consigo vê-lo nos candeeiros de auto-estrada, banham-me os cortinados por entre o som desgarrado das máquinas no último esforço diário.
 Por esta hora estaríamos entre séries, feitos em trança no sofá, e eu disfarçava os olhos esbugalhados de criança na curiosidade dos teus pés nus. Sempre que me reparavas, fingias não notar que eu fingia não notar, mantendo a beleza rocambolesca de uma função indecifrável. Gostava de subir as mãos pelas tuas calças de andar por casa, fato-treino, o tecido tão elegante como o gesto, dedilhando como numa harpa do tornozelo ao gémeo, dedos como segredos que só amantes sussurram, rota assente na terra do nunca. O fim, não havia realmente fim. 
Era tudo de um idealismo tolo que partilhamos, fruto daquilo que é a nossa sina perpendicular. Sei que com os anos a espontaneidade se iria, como é usual. E acho que teríamos lidado bem com o silêncio de quem se experimenta por várias luas. Seríamos bons a interpretá-lo de uma forma cinematográfica. Encontraríamos o interessante nisso, "o bicho só está lá porque a maçã é boa".
Os meses passariam, e consigo a sensação de tudo aquilo que não volta porque é tudo uma desilusão constante, no sentido em que nos deixamos de enganar sobre o que temos e o que poderíamos ter. Os olhos que se cruzavam com as pessoas na rua deixavam de ter o significado das nossas adolescências, morriam no fugaz momento de sensualidade. O momento em si seria importante, mas mais importante era o regresso. Quantas pessoas não sonham com o regresso que nós teríamos?

terça-feira, 11 de novembro de 2014

Nos Buracos

Acordo mal descansado,
naquele momento em que o dia se faz dia.
som de fundo irrompe no transe das nuvens.
Dormi por horas na minha casa, a terra minha cama.
No risco de um isqueiro,
no frio de um buraco,
cavado por corpos agora frios.
Assobios.
Noutro tempo diria que eram pássaros,
hoje é metal incandescente.
Alguém fala alto e sinto as chapas no peito,
a sujidade nas mãos.
Há sangue. Não é o dos meus cortes superficiais, é o sangue profundo, de membros,
de alma.
"Dá-me um cigarro". Chega o cigarro amarrotado. Há poucos.
Como se não te deixassem morrer aos poucos.
Inspiro. Expiro.
Não há homens.
Há nostalgia.
Há memória.
Há tudo
menos homens, nos buracos.