Mostrar mensagens com a etiqueta aoi sora. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta aoi sora. Mostrar todas as mensagens

sábado, 17 de outubro de 2015

Água


Tens - ao mesmo tempo - em ti, a expressão imutável de uma estátua e a sofreguidão de quem, ao meu primeiro toque, reverte para o estado líquido.
Se tiver razão, tocar-te onde me queres será como entrar em água salgada, tornozelos, joelhos...dedos que testam a resistência do tronco. Ou talvez só o ímpeto de testar a temperatura num ritual, para depois te beber de uma vez.
Mas e se em vez disso, preferisse andar sobre ti e fazer de profeta, ou te dividisse ao meio para que toda a pureza da minha alma te atravessasse e visses que parecem quarenta anos de promessas desfeitas e corpos rígidos no meu rasto, infinitas mulheres feitas em pedaços na minha consciência, e todas aquelas que hão de vir depois de ti, num só grito?
Nunca vou estar certo do que fazer, mesmo que te trate como vida, ou só como um elixir doentio do qual sugo vitalidade.
És perigosa, assim. E eu não suporto, não posso suportar alarmes, nem ler sinais de fumo.
Se para cada acção há uma reacção, eu não me posso transformar contigo. Alguns de nós encontram conforto na impossibilidade de desilusão, em já ter visto parasitas a morrer por não quererem mais ceifar do corpo o seu alimento.
Estes não querem o peso da simbiose, nem o segundo de êxtase que se transforma em anos de cicatriz.

Por isso, sempre que passo por ti, peço licença para que nem os tecidos que nos cobrem ganhem o cheiro um do outro e os aromas morram separados, mas cheios, em vez de juntos, amargos e gastos.

domingo, 21 de dezembro de 2014

La Viguela

´
Aqui me pongo a cantar
Al compás de la viguela,
Que el hombre que lo desvela
Una pena estraordinaria
Como el ave solitaria
Con el cantar se consuela.




Se dos passos se sentem os deuses, estejam eles onde estiverem, e para todos o mundo for manso como como as riscas da calçada, o fundo do mar é apenas no fundo.
A cada um de nós é dada essa perene sensação de quem canta. Sobretudo a quem se traduz nos becos das suas cidades.
Noutro dia não vai haver esse musgo no chão, nem os sotaques da comunidade pelo ar. É sempre melhor pensar no anonimato como um pardal nos quiosques. É essa a história da vida de quem se dissolve. Não vejo o mal nisso, não vejo a pele irritada das lágrimas secas, nem o nariz vermelho ou as pressões sobre a têmpora.
Pensem nisso como um quadro branco com as texturas de uma frase que só se consegue ler com luz negra. É inevitável que quem o note se sinta particularmente sensível aos acasos da continuidade estelar que teima em oferecer-nos músicas em que já estávamos a pensar antes de, à primeira estação sintonizada, a ouvirmos ser reproduzida. Outro exemplo disso mesmo é a pessoa que ocupa os nossos pensamentos invadir a caixa de mensagens com o "bom dia" dos dias frios, mas bons.
Nesse sentido, uma passada calma e o olhar devem ser apreciados como se de desabrochares perfeitos se tratassem. Uma segunda vez isto não se passará e poderá depender do humor com que se acorda ou do primeiro inspirar da manhã. As sensações perenes que que falava são como vultos e têm pernas lestas, que muitas vezes desaguam em rios pesados de correntes independentes.
Prometo que me deixas hoje desfeito como num delta se virares à esquerda e evitares esta rua.

sábado, 5 de julho de 2014

A-ko.

O Jorge não consegue dormir nas vésperas de exame, mas não percebe porquê. Após umas horas desiste, e olha pelas grades da janela do seu quarto, na procura do galo urbano que nunca conseguiu perceber onde existe. Quando canta, veste-se e sai de casa, os pés dançantes na monotonia do primeiro autocarro.
"Há algo de tocante no amarelo torrado da autoestrada com o sol".
O primeiro "bom dia" que lhe sai da garganta só encontra resposta no varrer ritmado de uma faculdade vazia. E o Jorge encurta a sua vida com um isqueiro.
Algumas páginas depois, e o caminho inverso, retorna ao seu quarto, onde as canetas moram frias e um jogo ainda não foi resolvido. Ouve as mesmas frases de uma mãe feliz, mas viciada na sua depressão, que envelhece sem dar conta. O cabelo branco de há dois anos multiplica-se, silenciosamente.
E, no seu quarto, o Jorge escreve textos.
Depois deita-se, e chora um pouco.

sábado, 15 de março de 2014

A Onze

Só, olhares filóginos no autocarro, quinze minutos, desconforto, jogos, atenção ao pensamento não vá alguém ouvir. Idade de prata, futuro de latão, o sono, traços contínuos em relevo, clube de golfe esbatido de tinta quebrada. Ar, último desvio da íris nas curvas baloiçantes de uma figura, relva com cuidado. Subsolo.

quarta-feira, 5 de março de 2014

Viagens - 1

Eu cabia sentado num muro, léguas à vista, num daqueles dias onde parece que amanhã é segunda.
Tinha o calor de um prado deitado à minha frente. Areia morta aos meus olhos no fio da distância. Estava sol, mas não dilacerante. Apenas o sol bom de que me recordo noutros dias. O feno soprado pelo vento, quase como se duas estações se unissem. Tinha o cantil de sobrevivência no colo. Sem ser necessário o confronto. Só a calma. Como se em breve fosse acordar e morresse um pouco. Esforçava-me para tentar não escravizar o momento com papel eterno. Está visto que falhei. Tinha de falhar. São pedaços incólumes que se perdem, mas que dignificamos no furto. Perde-se em originalidade, ganha-se no túnel de recordações arrependidas.
Senti que se o mundo fechasse um punho, soltava uma força benévola, como o assobio de alguém que te quer, uma mãe que te dá o pequeno-almoço. O pedaço inconsciente que aldraba a coerência.
Dois corpos não serviam de nada. Foi parte da corda-bamba da solidão desequilibrada no ponto certo. Foi necessário deixar em mim e não em nós.
À minha memória saltam histórias de outros, cariz semelhante, relatos diferentes. Gosto de ter uma.
Acabo-a com sentimentos contraditórios.
Deixa estar.

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

Oceano




No desconforto do meu leito baloiçante, umas palavras, para acalmar a imensidão azul e a lua fria.
Ondulo na pureza da descoberta.
Amanhã posso morrer às mãos de uma língua que não conheço, e onde está a calma nisso?
A ideia de casa é nostálgica. Comigo vinte sobreviventes que pensam o mesmo. Quase todos deixaram a lucidez na costa anterior. No mar, qualquer mulher é a casa. Não te orgulhes, penso em todas no breu da noite.
Não minto.
Amanhã continuo o trabalho da Coroa que não nos resgata.

sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

saw it written and i saw it say

A cada doente, um poema enjaulado.
Não se pode ter quartos vazios em casas de pano.

Vejo que não me crês, pelo toque.
Lê-me uma história, quero ouvir a tua voz calculada, a vibração calma dos dias. Fazes-me sentir novo e sem fios.
Quando já não estiver aqui, quero festas a todo o momento, especiarias no ar. Sorrisos leves. Sorrisos impossíveis no agora, não caras impassivas do agora.
Vou escrever a minha lista de música para as caras vestidas de preto. Deixar a ironia no ar. Mudar os lençóis da minha pálida aparência, talvez usar um chapéu laranja.
Quero tudo o que não posso agora, para no fim não me beijar o esquecimento.
Tenho medo como suores frios. Medo do amor que não posso sentir.
Medo de deixar o que conheço e se arrasta no pavimento.
Só a ti te diria isto.

quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

Reikouzo

O lado da vida de quem planta maracujás no jardim é o lado da vida que não vais ter, crescendo no urbano mundo da cor que não muda.
O lado da vida de quem pendura retratos em paredes pintadas de fresco é o lado de quem perde pedaços e os cola à frente do mundo, a dor no afecto não pode ser repetida, melhor é a dor de falhar com a tinta.
Cada braço estendido um olho fechado. Cada copo pago, um número de guardanapo e sorrisos boémios.
Cada mundo de trabalho, uma esfera de impossíveis.
Séries, escritos e mau-olhado. Respiração celular. Paragem de autocarro.