Reentro em casa do modo habitual, depois de sair com a cadela. Quando olho para trás vejo algo estranho no seu movimento, mas não paro de andar na direcção do teu quarto. Cruzo uma porta entreaberta que revela a luz acesa, e te revela dobrado sobre a cama, os teus olhos noutro sítio do globo, num estupor induzido pelo que te empresta vida para depois retirar. Talvez com aditivos.
Hoje, pela primeira vez na tua presença aberta, pela primeira vez num diálogo que teremos, também eu trago aditivos no sangue. Talvez por isso não se tenha desfeito a minha cabeça ao ver-te prostrado. Talvez nesse segundo tenha compreendido totalmente o fim da minha vida igual a ti. Talvez se tenha abatido sobre mim todo o peso do teu esforço, toda a corda bem envolta no meu pescoço e no teu e no nosso, como se de uma herança hierárquica de irmão mais novo para irmão mais novo se tratasse, e por fim talvez tenha entendido toda a tua magnanimidade, longe dos áureos dias infantes em que tu eras a imagem do homem que queria ser sem questionar.
Resolvi não entrar em confronto.
A cadela segue-me até ao teu quarto, em patas de lã com borbotos, o tal movimento estranho na sua pata. Tu dizes o que eu acabo de pensar:
"A cadela tem alguma coisa na pata."
Eu respondo:
"É, não é? D****. Deita. Barriga para cima."
Juntos assistimos calmamente à cadela que prontamente se deitou e colocou as quatro patas no ar, à nossa mercê, de barriga para cima. Sem hesitação, deixa-nos retirar o que a incomoda e ambos olhamos estupefactos na direcção um do outro, como se pensássemos, novamente ao mesmo tempo:
"Esta cadela é um espanto. A facilidade com que aquiesce e nos confia. A ausência total de receio da nossa figura, a confiança que tem em nós."
E dizemo-lo um ao outro. E partilhamos um momento como sempre quis, com leveza, com simplicidade. Um momento tão simples e familiar ao mesmo tempo sobre um animal que também nos une num cordão comum. Outra das razões que nos fazem dar importância à presença do outro. O pensamento semelhante que temos e nos mostra que ainda partilhamos algo, nem que seja a sensibilidade de observar, a nossa maneira dramática e ultra sentimental de absorver os momentos e o que nos rodeia, explanada nestes instantes. Enfim, todo o material genético que me constitui confirmar-se. E pela primeira vez em tantos, tantos anos, senti-lo como algo tão feliz.
don't go and lose your face/ at some stranger's place / and don't forget to breathe / and pay before you leave / lay me down to crawl
Mostrar mensagens com a etiqueta família. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta família. Mostrar todas as mensagens
sábado, 15 de agosto de 2015
quinta-feira, 7 de maio de 2015
tentemos então ver a coisa ao contrário
O meu pai disse-me, um dia: "quase que os imagino. Quase, nada. Tenho as imagens claras na minha cabeça. A chegada de uma família de quatro a uma Paris tão diferente, era um pobre El Dorado, pertencia aos pobres portugueses, de pobres origens, almejando uma riqueza que nós hoje sabemos também ser invariavelmente pobre.
As vozes ressoam da Gare. Eles falam um dialecto estranho. Algumas palavras rasgam o Português no ar, a azáfama de um e de todos, é também uma cidade em movimento, para alguns a primeira que viram, mas nunca a última que desejam ver. O seu coração é português, visível nitidamente em tudo o que carregam. Em toda a sua aparência, todo o seu olhar de espanto, angústia, desespero. Mas sempre algum fogo.
Nos primeiros passos dados fora da carruagem, o pai lidera o caminho como um piloto sem portulano, perdido em Paris como os seus antepassados no Atlântico, Índico e Pacífico, as malas contém uma vida familiar em si e pesam nos seus ombros. A mãe de dois tem a cara trancada a cadeado, um filho, demasiado novo para andar, adorna-lhe o ombro com o rosto, esconde-se e lança ocasionalmente um olhar assustado para o de sua mãe, olhos abertos, boca entreaberta, sem se atrever a falar com o marido, quer porque não há espaço para tal desafio ou apenas porque o Português que da sua boca saísse iria certamente suscitar olhares.
O segundo filho vem arrastado pelo braço, em constante desequilíbrio e pressa: são seis aninhos, tudo é novo. Na mão que a mãe não agarra, segura um garrafão cheio, mais cheio do que o suposto, de vinho. O peso é enorme. Foge-lhe aos poucos da infante mão até cair com estrondo no piso, quase paralizando a gare durante um eterno décimo de segundo. O pai larga tudo, a mãe larga o filho, as duas faces adultas enrubescem. Cinquenta pensamentos atravessam a mente do pai, a vergonha, o embaraço, "o português"; todos estes, mas o mais forte de todos: a única lembrança vívida que poderia saborear da sua terra natal, o vinho, agora escorre no chão, faz parte de França. a portugalidade findou. Uma chapada voa sem pensar, atinge a cara do filho, que não tem tempo de se aperceber, sentindo apenas o calor a invadi-lo enquanto o pai arrasta o corpo dormente pelo erro e pela agressão, a mão na cara agora, as lágrimas silenciosamente escorrem rosto abaixo na mãe e filhos, o pai dono de um arrependimento acerca do qual nunca se desculpará. A vida é a vida e não pára nunca. Leva-se nos cornos e segue-se em frente. Se se pára ou volta atrás, deixa de haver caminho para qualquer um dos lados. É assim que é.
E a gare, a Gare de Austerlitz, viu milhares de casos de todos estes sentimentos, é rica em cicatrizes, vinho e lágrimas de portugueses.
E todos os portugueses choram a sua terra perdidos no barulho de uma fábrica, em cada sorriso que dirigem ao patrão"
.
domingo, 22 de fevereiro de 2015
smog
Tenho um amigo, na realidade um amigo que por dissabores se tornou relâmpago, que disfarça as loucuras por baixo de nenúfares em flor, ou mais até como pato num lago. Tudo calmo à superfície, enquanto as patas desenvolvem um festival frenético, capaz de separar moléculas e reverter água para hidrogénio.
Ele mente. Copiosa e fantasticamente. Quando outros nele vêem apenas uma sequência aleatória de factos comprovadamente passíveis de rejeição, eu vejo a mente de uma criança que ainda o é, de vívida imaginação e detalhes que trazem lágrimas aos olhos. A sua mãe é professora, contudo não há um livro à vista nas suas estantes em casa. O pai era agente de uma qualquer força armada, mas trabalha num aeroporto em Bruxelas. Este tipo de coisa.
Não o via há dois meses. Não lhe falava longamente há ano e tal.
Hoje redescobri o susto que é crescer desamparado. Tenho medo, mãe. Envolve os teus braços nesta fraca estrutura óssea até quebrar. Tolda-me os sentidos para não me esconder do mundo, e oferece-me a imagem dos adultos que têm de sorrir para que os filhos anseiem o pagamento de impostos.
Deixaste-me em 2007 e nunca esteve tanto frio em casa.
Ele mente. Copiosa e fantasticamente. Quando outros nele vêem apenas uma sequência aleatória de factos comprovadamente passíveis de rejeição, eu vejo a mente de uma criança que ainda o é, de vívida imaginação e detalhes que trazem lágrimas aos olhos. A sua mãe é professora, contudo não há um livro à vista nas suas estantes em casa. O pai era agente de uma qualquer força armada, mas trabalha num aeroporto em Bruxelas. Este tipo de coisa.
Não o via há dois meses. Não lhe falava longamente há ano e tal.
Hoje redescobri o susto que é crescer desamparado. Tenho medo, mãe. Envolve os teus braços nesta fraca estrutura óssea até quebrar. Tolda-me os sentidos para não me esconder do mundo, e oferece-me a imagem dos adultos que têm de sorrir para que os filhos anseiem o pagamento de impostos.
Deixaste-me em 2007 e nunca esteve tanto frio em casa.
Etiquetas:
black baloon,
curtas,
família,
plug it in,
the crawl,
using cander as painkiller,
youth novel
quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014
João
És vida nos meus braços e vejo-te crescer.
Dos carros aos lápis de cera. No primeiro caracter.
Até pisar as folhas de Outono.
Dos carros aos lápis de cera. No primeiro caracter.
Até pisar as folhas de Outono.
sexta-feira, 24 de janeiro de 2014
saw it written and i saw it say
A cada doente, um poema enjaulado.
Não se pode ter quartos vazios em casas de pano.
Vejo que não me crês, pelo toque.
Lê-me uma história, quero ouvir a tua voz calculada, a vibração calma dos dias. Fazes-me sentir novo e sem fios.
Quando já não estiver aqui, quero festas a todo o momento, especiarias no ar. Sorrisos leves. Sorrisos impossíveis no agora, não caras impassivas do agora.
Vou escrever a minha lista de música para as caras vestidas de preto. Deixar a ironia no ar. Mudar os lençóis da minha pálida aparência, talvez usar um chapéu laranja.
Quero tudo o que não posso agora, para no fim não me beijar o esquecimento.
Tenho medo como suores frios. Medo do amor que não posso sentir.
Medo de deixar o que conheço e se arrasta no pavimento.
Só a ti te diria isto.
Não se pode ter quartos vazios em casas de pano.
Vejo que não me crês, pelo toque.
Lê-me uma história, quero ouvir a tua voz calculada, a vibração calma dos dias. Fazes-me sentir novo e sem fios.
Quando já não estiver aqui, quero festas a todo o momento, especiarias no ar. Sorrisos leves. Sorrisos impossíveis no agora, não caras impassivas do agora.
Vou escrever a minha lista de música para as caras vestidas de preto. Deixar a ironia no ar. Mudar os lençóis da minha pálida aparência, talvez usar um chapéu laranja.
Quero tudo o que não posso agora, para no fim não me beijar o esquecimento.
Tenho medo como suores frios. Medo do amor que não posso sentir.
Medo de deixar o que conheço e se arrasta no pavimento.
Só a ti te diria isto.
Etiquetas:
aoi sora,
família,
nani mo arimasu,
pink moon,
what is dead may never die
domingo, 20 de outubro de 2013
Footsteps
O que fazer quando já nem humanidade temos em comum? Quando nos sentamos na sala, frente a frente, e o desejo é silêncio permanente, o ar suportando esta forma de vida que escorre de nós, coagulada, a custo?
Diz-me, porque já não sei o que fazer.
Desespero gravemente sobre a tua indiferença, sobre a frieza daquilo que te escapa, sobre aquilo que já não és e nunca mais vais poder ser. Sobre não suportar uma culpa que nos envolve e nos torna feios por dentro, mata devagar, mas tão devagar que não dói, só incomoda, chuva miúda.
Estou só tão cansado de respirar este espaço. Como se as forças nunca tivessem existido. E nunca nada nos tivesse ligado.
Diz-me, porque já não sei o que fazer.
Desespero gravemente sobre a tua indiferença, sobre a frieza daquilo que te escapa, sobre aquilo que já não és e nunca mais vais poder ser. Sobre não suportar uma culpa que nos envolve e nos torna feios por dentro, mata devagar, mas tão devagar que não dói, só incomoda, chuva miúda.
Estou só tão cansado de respirar este espaço. Como se as forças nunca tivessem existido. E nunca nada nos tivesse ligado.
segunda-feira, 7 de outubro de 2013
Chop Suey
Vão longe, os dias em que tudo o que me dizias era dogma. E apenas podia esboçar um ar de fraca compreensão, genialidade arrepiante, sapatos grandes que nunca caberiam confortavelmente nos meus pés. Em que sonhava poder vir a ser tu, sem defeitos e pleno de carisma, acabando sempre o que começava.
Os anos passaram, tudo é diferente. O mundo não é a preto e branco. Nada é ou não é. E sinto saudades de achar isso, de te ter como conforto e modelo, poder repetir as tuas frases a quem nascer de mim, pequeno sorriso nostálgico de ser parte de quem és.
Não me interpretes mal. Tenho orgulho. Muito.
Mas já não és a causa que defendo cegamente, nem imune a críticas choradas.
Os anos passaram, tudo é diferente. O mundo não é a preto e branco. Nada é ou não é. E sinto saudades de achar isso, de te ter como conforto e modelo, poder repetir as tuas frases a quem nascer de mim, pequeno sorriso nostálgico de ser parte de quem és.
Não me interpretes mal. Tenho orgulho. Muito.
Mas já não és a causa que defendo cegamente, nem imune a críticas choradas.
És humano. Bom, mas só humano.
segunda-feira, 30 de setembro de 2013
Texto
Colecciono momentos e objectos como se me fossem indispensáveis para respirar. Sobretudo momentos. Guardo-os na cabeça, à espera que a vida mos coma. E quero-os assim, não registados, desarrumados, surpreendentes numa noite em que algo os despoleta. Um cérebro desarrumado sabe como dias a café. Sem comer de manhã, dedos ansiosos e ar cortante. É bom, é tudo para mim, essa ideia de que eles sempre voltam. E de que se podem confundir com sonhos, mentindo suavemente à realidade. E se não voltarem, também não sei que existem. Poupa-me um suspiro - talvez uma lágrima - sobre um papel amarrotado.
Recordo-me de um fragmento de imagem. Devia ter uns três anos, e olho para o meu pai, sentado à cabeceira da mesa, ar confiante, cotovelo equilibrado por razões de etiqueta. E um sorriso verdadeiro na cara. Rugas breves, de feitio. Esta figura surge repetitivamente na minha cabeça, como se a maldissesse ou quisesse guardá-la muito perto.
Não sei o que a provoca, sei que é de ferro. Cada vez que penso nela, a nostalgia invade, tecido macio. E provoca uma torrente de outros pedaços que me percorrem, até ao embrião. De pessoas que não vejo, situações caricatas, medo, vergonha, tudo, tudo passa. Ao ponto de não saber se me fez bem esta viagem. Se lembrar é melhor do que estar sempre aqui e agora, realidade gasta, mas palpável, inegável, existente.
Não sei. Mas não as quero perder.
segunda-feira, 21 de janeiro de 2013
-masu
Estou deitado numa cama portátil,
Fui adoptado pelo meu irmão.
O meu mundo não começa sequer a fazer sentido.
Jogo com pessoas e palavras para me sentir melhor
Tento que nada seja ao acaso
Tento que se perceba o meu desespero
Afogado em páginas para ninguém ler.
Afogado em letras feias sem que ninguém lhes diga.
Olho para a cara da miúda à minha frente e construo um futuro porque vivo neste sonho como forma de escape.
Lido com as mulheres como se fossem a solução.
Fui adoptado pelo meu irmão.
O meu mundo não começa sequer a fazer sentido.
Jogo com pessoas e palavras para me sentir melhor
Tento que nada seja ao acaso
Tento que se perceba o meu desespero
Afogado em páginas para ninguém ler.
Afogado em letras feias sem que ninguém lhes diga.
Olho para a cara da miúda à minha frente e construo um futuro porque vivo neste sonho como forma de escape.
Lido com as mulheres como se fossem a solução.
quinta-feira, 3 de janeiro de 2013
E
O que eu faço é assassinio. Eu, e eu só, mato tudo o que lhe resta na cabeça, mutilo qualquer pedaço de humanidade que lhe reste. Dia-a-dia, eu roubo-lhe um passado que ela guarda com as unhas, com toda a vontade e desespero, com os dentes, com a vida. E eu, num deslizar mal pensado de língua, tiro-lhe tudo, tudo o que ela foi, animalizo-a, minimalizo-a, e ela torna-se na mobilia da casa que me matou a mim.
Eu só queria mais um segundo são com ela, só queria mais um instante dela para me lembrar, para não repetir, para guardar sempre, aqui tão próximo, infinitamente longe.
Só mais um monólogo de queixas acerca da vida que nos maltrata, da vida que nos polui, que nos assalta, tudo isto num sofá confortável, sobre a mesa velas aromáticas e no seu corpo roupas de seda.
Só mais um instante de medos de uma vida terrível sem a ter.
Apenas mais um. Apenas uma merda de um cigarro com a minha mãe.
Eu só queria mais um segundo são com ela, só queria mais um instante dela para me lembrar, para não repetir, para guardar sempre, aqui tão próximo, infinitamente longe.
Só mais um monólogo de queixas acerca da vida que nos maltrata, da vida que nos polui, que nos assalta, tudo isto num sofá confortável, sobre a mesa velas aromáticas e no seu corpo roupas de seda.
Só mais um instante de medos de uma vida terrível sem a ter.
Apenas mais um. Apenas uma merda de um cigarro com a minha mãe.
Etiquetas:
família,
Nirvana Blue,
rocketman,
the crawl
quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012
Maria
Cedo marcou os pontos estelares e inventou bonitos quadros de desejo, raiva e mentira.Não imagino melhor.
Quase parado, absolveu-se e fez nascer um novo dia.
Cores vibrantes, mortas. Um quadro sobre o Paraíso. Mas não estava lá ele, não estava lá.
Estava apenas uma sombra escondida, de cadeira de rodas, a ver o nascer do sol. Já que ele não o merece, que vá para lá quem por ele sofreu.
Ele, que acolheu as suas esperanças e lugares-comuns, e os guardou entre a cabeça e o peito, por precaução.
Agora, alheada ao mundo, olha todos através de uma clarabóia, ou vê o mar, aos fins de semana. Sonha com cores conhecidas, familiares, espelhadas numa onda de proximidade.
Hoje, mais do que nunca, sinto falta de quem não recordo.
Mas o odor não desaparece.
Quase parado, absolveu-se e fez nascer um novo dia.
Cores vibrantes, mortas. Um quadro sobre o Paraíso. Mas não estava lá ele, não estava lá.
Estava apenas uma sombra escondida, de cadeira de rodas, a ver o nascer do sol. Já que ele não o merece, que vá para lá quem por ele sofreu.
Ele, que acolheu as suas esperanças e lugares-comuns, e os guardou entre a cabeça e o peito, por precaução.
Agora, alheada ao mundo, olha todos através de uma clarabóia, ou vê o mar, aos fins de semana. Sonha com cores conhecidas, familiares, espelhadas numa onda de proximidade.
Hoje, mais do que nunca, sinto falta de quem não recordo.
Mas o odor não desaparece.
Etiquetas:
família,
flores,
Nirvana Blue,
The Comeback,
the crawl
Subscrever:
Mensagens (Atom)