Mostrar mensagens com a etiqueta a day once dawned. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta a day once dawned. Mostrar todas as mensagens

domingo, 28 de fevereiro de 2016

Não se transmite

que me tens na língua como doce de limão.
...
Que só não penso em ti porque não penso em mais ninguém,
O meu tórax fechado e em modo de sobrevivência.

A campainha toca para a idade adulta,
a porta fecha para desafios.

Na minha nuca, bem ao fundo,
o que deve perder-se e não se perde,
o que ainda se recupera e as batalhas perdidas,
a indulgência, a necessidade, 
a criança que me olha,
o fim da minha árvore,
o meu terraço vazio,
oportunidades como estrelas cadentes.

recortes mentais do que era há 10, 5, 3 e 1 ano.

a luta para voltar a juntar palavras como casais.

sábado, 28 de fevereiro de 2015

conversas moléculares ou a tautologia do que é exprimir-se

eu vejo um cubo
e digo-te que é um cubo,
com os teus braços esvoaçantes procuras as arestas que o limitam,
olhos no céu, de palmas viradas para cima.
E tremes. Tremes o teu mundo contigo, contido
na limitação do que é exprimir-se,
exprimir o sítio onde estás,
que é amarelo e rosa forte ao mesmo tempo,
cores quentes pejadas de parco laço a uni-las.
E não posso dizer que é mentira,
nem que há cinco segundos falávamos do cubo,
senão desabas no infinito
e um grito mudo na tua cabeça coloca o ponto final
da conversa que ainda não começaste.

domingo, 22 de fevereiro de 2015

count your coins and throw them over my shoulder

"não quero"
e dois comprimidos (que são vinte, mas shhh) deslizam
na garganta,
sabor a frutos exóticos e
a lar longe de lar: o mundo afogado,
confortos vazios.
Estou a 9 milimetros de mim, olho
de cima. Afago a minha cara:
"mereces."
De repente, pânico.
O horror, o meu pai espojado
sobre o mogno frio
da minha caixa num lugar
sem cor,
o meu irmão,
olhar louco,
o desgaste,
a imagem de si comigo ao colo,
a minha mãe - tão longe daqui "o meu pai?",
pergunta repetida.

Volto de susto,
agarro o maxilar que afagava.

Vómito.
Azia.
Dorme, Miguel.
Amanhã é dia.


domingo, 21 de dezembro de 2014

La Viguela

´
Aqui me pongo a cantar
Al compás de la viguela,
Que el hombre que lo desvela
Una pena estraordinaria
Como el ave solitaria
Con el cantar se consuela.




Se dos passos se sentem os deuses, estejam eles onde estiverem, e para todos o mundo for manso como como as riscas da calçada, o fundo do mar é apenas no fundo.
A cada um de nós é dada essa perene sensação de quem canta. Sobretudo a quem se traduz nos becos das suas cidades.
Noutro dia não vai haver esse musgo no chão, nem os sotaques da comunidade pelo ar. É sempre melhor pensar no anonimato como um pardal nos quiosques. É essa a história da vida de quem se dissolve. Não vejo o mal nisso, não vejo a pele irritada das lágrimas secas, nem o nariz vermelho ou as pressões sobre a têmpora.
Pensem nisso como um quadro branco com as texturas de uma frase que só se consegue ler com luz negra. É inevitável que quem o note se sinta particularmente sensível aos acasos da continuidade estelar que teima em oferecer-nos músicas em que já estávamos a pensar antes de, à primeira estação sintonizada, a ouvirmos ser reproduzida. Outro exemplo disso mesmo é a pessoa que ocupa os nossos pensamentos invadir a caixa de mensagens com o "bom dia" dos dias frios, mas bons.
Nesse sentido, uma passada calma e o olhar devem ser apreciados como se de desabrochares perfeitos se tratassem. Uma segunda vez isto não se passará e poderá depender do humor com que se acorda ou do primeiro inspirar da manhã. As sensações perenes que que falava são como vultos e têm pernas lestas, que muitas vezes desaguam em rios pesados de correntes independentes.
Prometo que me deixas hoje desfeito como num delta se virares à esquerda e evitares esta rua.

sábado, 29 de novembro de 2014

toq-bor-neh

É tarde, Maria. Consigo vê-lo nos candeeiros de auto-estrada, banham-me os cortinados por entre o som desgarrado das máquinas no último esforço diário.
 Por esta hora estaríamos entre séries, feitos em trança no sofá, e eu disfarçava os olhos esbugalhados de criança na curiosidade dos teus pés nus. Sempre que me reparavas, fingias não notar que eu fingia não notar, mantendo a beleza rocambolesca de uma função indecifrável. Gostava de subir as mãos pelas tuas calças de andar por casa, fato-treino, o tecido tão elegante como o gesto, dedilhando como numa harpa do tornozelo ao gémeo, dedos como segredos que só amantes sussurram, rota assente na terra do nunca. O fim, não havia realmente fim. 
Era tudo de um idealismo tolo que partilhamos, fruto daquilo que é a nossa sina perpendicular. Sei que com os anos a espontaneidade se iria, como é usual. E acho que teríamos lidado bem com o silêncio de quem se experimenta por várias luas. Seríamos bons a interpretá-lo de uma forma cinematográfica. Encontraríamos o interessante nisso, "o bicho só está lá porque a maçã é boa".
Os meses passariam, e consigo a sensação de tudo aquilo que não volta porque é tudo uma desilusão constante, no sentido em que nos deixamos de enganar sobre o que temos e o que poderíamos ter. Os olhos que se cruzavam com as pessoas na rua deixavam de ter o significado das nossas adolescências, morriam no fugaz momento de sensualidade. O momento em si seria importante, mas mais importante era o regresso. Quantas pessoas não sonham com o regresso que nós teríamos?

quinta-feira, 4 de setembro de 2014

Sofá

Chega, temível, um pensamento, enquanto me afogo na ternura sufocante do meu sofá.
É do amanhã, dessas terras que conheço a custo, que me mostram esta insuficiência renal e pobre desempenho.
Sim, vais morrer. E levar contigo uma longa lista de arrependimentos.
Mas pior, vais envelhecer antes disso.
Os dias colam-se. Um dia tem dois sóis.

segunda-feira, 1 de setembro de 2014

terça-feira, 29 de julho de 2014

Artemis

São seis da manhã,
em guerra com o bolso,
procuro o tabaco e pondero um café.
Pronto a afagar o monstro que mora no meu caderno,
até passar por uma,
duas
fotografias tuas,
e rabiscos de noites em que o amor molhava a sala.
E penso no teu delicado sentido de mau gosto,
nos nós morenos dos teus dedos,
na tua cara torcida em desilusão,
mil imagens que não posso revelar.
Faço o café para não perder este momento
de contemplação e memória,
nostalgia pouco adulta,
distante,
lá num canto,
um papel amachucado sobre a mesa de cabeceira.
Noutros tempos, saías-me do fígado.
Explica-me
esse processo longo de metamorfose
que te viu tornar em filme de domingo à tarde,
quando partiste de ansiolítico.

sábado, 5 de julho de 2014

A-ko.

O Jorge não consegue dormir nas vésperas de exame, mas não percebe porquê. Após umas horas desiste, e olha pelas grades da janela do seu quarto, na procura do galo urbano que nunca conseguiu perceber onde existe. Quando canta, veste-se e sai de casa, os pés dançantes na monotonia do primeiro autocarro.
"Há algo de tocante no amarelo torrado da autoestrada com o sol".
O primeiro "bom dia" que lhe sai da garganta só encontra resposta no varrer ritmado de uma faculdade vazia. E o Jorge encurta a sua vida com um isqueiro.
Algumas páginas depois, e o caminho inverso, retorna ao seu quarto, onde as canetas moram frias e um jogo ainda não foi resolvido. Ouve as mesmas frases de uma mãe feliz, mas viciada na sua depressão, que envelhece sem dar conta. O cabelo branco de há dois anos multiplica-se, silenciosamente.
E, no seu quarto, o Jorge escreve textos.
Depois deita-se, e chora um pouco.

quarta-feira, 18 de junho de 2014

Morning Bell

a insónia vaporiza oceanos, na ondulação dos corpos agitados. quatro paredes, uma voz, a falar baixinho. de repente, ar frio, como sino matinal. café, cara lavada, olhos em sangue. a última gota de normalidade cai dormente, cérebro dormente, nas fendas da calçada. é o metro, é o dia frio, é mudo, é tudo tão d-e-s-e-s-p-e-r-a-d-a-m-e-n-t-e               opaco.
.
..
...

Um esforço sobre-humano para a fotossíntese. funções onomatopaicas.