quarta-feira, 24 de dezembro de 2014

#351

Devo dizer que não existiam palavras se não houvesse destinatário como não haveria deus sem morte.
Eu colo publicidade em sítios esquisitos. Não paga muito, mas ando por aí, e vivo sozinho.
Quando me refiro a sítios esquisitos, não falo dos moopies das paragens de autocarro, nem colo cartazes ou subo às construções que anunciam "anuncie aqui". O que eu faço, vocês veem todos os dias sem ver, colo autocolantes em sinais de trânsito, cabines telefónicas, caixas de correio, naquelas máquinas de rua que ninguém percebe bem para que servem, esse tipo de coisas. Na realidade isto nem dá uma história, é só curioso que nunca tenham reparado que estes autocolantes estão em todo o lado. Já colei selos de canalizadores na parte de trás de um autocarro, em mesas de cafés, à porta do teu prédio, anúncios para concertos e festas em paredes de Lisboa, animais desaparecidos em candeeiros, já estás a ver a ideia.
Encontrei coisas interessantes no meu trabalho. Um candeeiro entra no teu campo de visão longe, mas só ficas realmente próximo a ponto de ler o que lá está escrito durante três segundos, mais ou menos. E para onde olhas?
Por exemplo, outro dia colei anúncios de uma empresa de mudanças naqueles geradores de electricidade que estão na rua, muitas vezes num sítio que em não incomodem ninguém. Percebi que era a melhor forma de o fazer, porque estão normalmente na parte de trás de prédios, e as pessoas podem encontrá-los enquanto vão para o carro, ou assim.
Penso que é a forma mais honesta de comunicação. Estes anúncios são pagos à letra e por tamanho e constituição de papel, se feitos profissionalmente, e portanto retém apenas a informação estritamente necessária.

"Mudanças 18E/Hora. Mínimo 3 Horas. 21*******."
"Faz-Tudo. Mobiliário, Electrodomésticos, Obras de todo o tipo. Deslocações Curtas. 21*******."

A prova de que o faço bem, é que dás com isso sempre que precisas, embora muitas vezes te sintas desagradado com o resultado final. É publicidade, estavas à espera do quê?
Os prestadores deste tipo de serviços são homens como todos os outros. Como deves imaginar, conheci muitos deles. Prestam atenção à concorrência e têm sempre reparos bem fundamentados a fazer. Falam pouco e estão sempre ocupados. Podes vê-los em armazéns pequenos onde guardam a sua vida e fotografias familiares de dias leves. Se têm azar e lhes entram por ali adentro, perdem utensílios preciosos, mementos guardados ao longo de anos que aprenderam a multifacetar por falta de fundos e um dom inato chamado sentido prático. Nenhum deles tem as mãos lisas como as minhas, ou as tuas. E não sorriem muito. São feitos de um molde diferente, não têm tempo para sonhar acordados como tu e eu. Não é importante o suficiente.
Falava do pragmatismo da comunicação. Nunca é como devia. Pessoas fazem carreiras da sua complexificação, e devem fazê-lo, porque não? Porque não embelezá-la, torná-la em algo inatingível, de bom gosto? Percebo o apelo, a vontade de brincar com as ideias todos os dias, aliás, estou a fazê-lo agora para meu prazer, e ao fazê-lo, a revelar outra particularidade curiosa nela: a sua capacidade profunda de deixar revelar mais do que queríamos inicialmente. Assim, aqueles anúncios de há bocado diriam

"Três horas no mínimo, senão não consigo dinheiro suficiente para suportar a deslocação, horas de trabalho e pessoas que trago comigo."

"Comecei apenas como carpinteiro, mas tive de alargar a minha área de conhecimentos para conseguir trabalhos, que cada vez aparecem menos."

Noutras profissões este fenómeno também se verifica, sob outros contornos. Tinha um amigo que apanhava frequentemente táxis, e muitas vezes o mesmo taxista que, ao começar a reconhecer a sua cara, transitou do "bom dia" habitual para "o seu Benfica", daí para apitar ocasionalmente quando no seu campo de visão surgiam voluptuosas curvas de mulheres a quem nunca responderia se sequer expelissem um vocábulo na sua direcção (algo que deixava o meu amigo terrivelmente envergonhado). Claramente a conversa de circunstância já não bastava, não imagino que hajam assim tantos caminhos diferentes e opções a tomar quando se quer ir sempre para o Marquês, vindo sempre do mesmo sítio. E dia sim, dia não, era este o taxista que o vinha apanhar. Numa segunda-feira de manhã, o senhor trazia um semblante carregado, motivo que fez o meu amigo inquirir o porquê disso mesmo. A pergunta escapou de repente, sem que ele a notasse nas primeiras palavras e arrependido demais para parar a meio, "e então, passa-se alguma coisa?" As lágrimas escorreram e o meu amigo pensou "Foda-se.". O que se seguiu foi estranho de digerir.
"Todas as sextas-feiras chego cansado do trabalho e dou "uma" na mulher, para a manter contente, sabe como é. Depois piro-me rapidamente para Sintra, tenho lá um espacinho onde guardo uns passaritos, nada de mais. Chego lá e está tudo na merda, jaulas partidas, montes de penas no chão. Tinham morrido todos. Só percebi o que se passou quando vi um falcão com a asa ferida lá deitado."
O meu amigo teve pena, mas estava curioso. Perguntou o que ele tinha feito.
Não ia matar o bicho, não é? Até quis, mas estas coisas são mesmo assim. Fiz-lhe um curativo e está lá, onde os meninos dormiam. O sacana."
O meu amigo, na sua presunção, não imaginava aquele ser capaz de tal sentimento. A comunicação gerara empatia. Comunicação que não tinha lugar ali.
Quando finalmente o falcão se curou o taxista libertou-o. Mais uma vez entre lágrimas.


domingo, 21 de dezembro de 2014

La Viguela

´
Aqui me pongo a cantar
Al compás de la viguela,
Que el hombre que lo desvela
Una pena estraordinaria
Como el ave solitaria
Con el cantar se consuela.




Se dos passos se sentem os deuses, estejam eles onde estiverem, e para todos o mundo for manso como como as riscas da calçada, o fundo do mar é apenas no fundo.
A cada um de nós é dada essa perene sensação de quem canta. Sobretudo a quem se traduz nos becos das suas cidades.
Noutro dia não vai haver esse musgo no chão, nem os sotaques da comunidade pelo ar. É sempre melhor pensar no anonimato como um pardal nos quiosques. É essa a história da vida de quem se dissolve. Não vejo o mal nisso, não vejo a pele irritada das lágrimas secas, nem o nariz vermelho ou as pressões sobre a têmpora.
Pensem nisso como um quadro branco com as texturas de uma frase que só se consegue ler com luz negra. É inevitável que quem o note se sinta particularmente sensível aos acasos da continuidade estelar que teima em oferecer-nos músicas em que já estávamos a pensar antes de, à primeira estação sintonizada, a ouvirmos ser reproduzida. Outro exemplo disso mesmo é a pessoa que ocupa os nossos pensamentos invadir a caixa de mensagens com o "bom dia" dos dias frios, mas bons.
Nesse sentido, uma passada calma e o olhar devem ser apreciados como se de desabrochares perfeitos se tratassem. Uma segunda vez isto não se passará e poderá depender do humor com que se acorda ou do primeiro inspirar da manhã. As sensações perenes que que falava são como vultos e têm pernas lestas, que muitas vezes desaguam em rios pesados de correntes independentes.
Prometo que me deixas hoje desfeito como num delta se virares à esquerda e evitares esta rua.