terça-feira, 17 de outubro de 2017

#500

Sirene:

esquece-me sempre que ameaço existir no teu cerebelo.
e, no processo de me esquecer,
lembra-te que nunca me quiseste a sério
para que saia de vez.

se nos amámos, foi nestas páginas.
a dor incauta da tinta.

escorraça-me do teu passado,
mas lembra-te da música.

se o meu nome se espremer através dos teus dentes,
empurrado pelo deslizar descuidado da tua língua,
é para nomear outros.
sempre foi para nomear outros.
a mim chamavas-me outra coisa
muitas outras coisas, boas e más.

Portanto que não seja meu o meu nome.

Eu usava uma cor.
pobre escolha de vocábulo.
o exercício que te recomendo não serve para mim.

terça-feira, 30 de agosto de 2016

Babel (intro)

"Como minha primeira medida enquanto Rei, declaro que vamos construir uma torre. Uma torre tão alta que chegará aos Jardins Prometidos de Deus, onde nos prostraremos perante a sua omnipotência e viveremos no ócio até ao final dos dias."

Foi um longo caminho, até aqui chegar.
No princípio, éramos quatro. Eu, a minha mulher e os nossos dois filhos.
Quando no meu corpo encontrei o dobro das cicatrizes, decidi que precisávamos de ser mais para sobreviver, e então convenci outros a juntar-se a nós.
Crescemos em número, sem que isso colocasse em perigo a nossa mobilidade enquanto grupo. Vivíamos uma vida nomádica e feliz, até encontrarmos povos mais desenvolvidos, estabelecidos de forma permanente em pedaços de terra a que chamavam seus. Desbastaram florestas e mantinham os perigosos animais afastados dos seus locais de repouso, mas não da ponta das suas lanças. Fizemos um pacto com eles e juntámo-nos à sua pequena, mas vibrante sociedade.
O nosso clã cresceu e tornou-se poderoso. Aprendemos a cultivar. Ensinamos diligentemente a cuidar do gado e montar a cavalo. No final desta adaptação, e com a anexação de outros clãs, tornámo-nos numa grandiosa sociedade que já não tinha como objectivo a sobrevivência apenas. Os problemas diversificaram-se e complexificaram-se. Todos tínhamos opiniões diferentes e, como resultado, problemas internos de difícil resolução que perturbavam nitidamente a vivência diária.
Resolvemos eleger um Rei.

das mãos frias

Escrevo-vos hoje este início, de mãos frias. Trago histórias de guerra, histórias de navios, de piqueniques bizarros e de paixão injectada. Carrego-os comigo mas não as vou partilhar. O que se seguirá é o nosso enredo depois de me colocarem no braço um chip solúvel chamado "V". Nos meus dias, o "V" era uma inovação tecnológica que servia aos espíritos livres. Há várias maneiras de o utilizar, dependendo da vontade de cada um, e é isso que o torna tão procurado.
O seu propósito é o de criar linhas temporais ao seu utilizador, de acordo com aquilo que o mesmo lhe explicita. Digamos que quereria viver num mundo onde tenha cinco filhos, uma esposa, uma conta bancária recheada e um emprego de sonho. O "V" criaria esse universo para meu usufruto. Pode até estipular-se o tempo que desejamos lá viver.
Parece uma invenção perfeita. Os responsáveis pelo seu desenvolvimento publicitaram-na enquanto tal, acrescentando uma opção, somente para os "verdadeiros aventureiros": o modo aleatório. Neste modo, o "V" cria um universo com todas as variáveis ao acaso, com excepção das leis da Física e com o mesmo desenvolvimento tecnológico do nosso Mundo. Podemos viver nele tão pouco como cinco minutos ou tanto como 80 anos, é uma incógnita. Há três maneiras de escapar deste ciclo de vidas ininterrupto: Desligar o modo aleatório, regressar ao universo de origem fora deste modo ou a morte.
Eu sou um destes "verdadeiros aventureiros". Eu liguei o modo aleatório. O meu "V" avariou. Estou preso.

v2

Tenho ** anos. Atravesso a rua e toda a gente fala disto. Milhares de pessoas estão à porta do sitio para onde me dirijo. Uns protestam sob pretextos religiosos, acerca de como a vida é tão preciosa e única que apenas o pensamento de criar uma alternativa é herético. Outros imploram por uma oportunidade de se submeter à experiência, sem meios para a pagar. Os opostos tocam-se no seu entusiasmo. O sentimento é fervilhante e descomposto, mas revitalizante. Como uma orgia da res pública. Não acho que tenha alguma vez visto tanta gente interessada no mesmo. Ou tanta gente junta, sequer. A paixão é desmesurada e surgem pequenos incidentes por todo o lado, a polícia não consegue saná-los a todos.
Na realidade, eu também não venho de uma família com grandes meios. O meu pai tinha um seguro de vida particularmente bom. Morreu o ano passado. Os seus últimos suspiros opiáceos cantavam "Que vida, que viagem." Morreu feliz. Morreu longe daqui. 
Comecei a perguntar-me se vou sentir o mesmo, quando chegar a minha vez. Se vou fazer tudo bem, se vou errar pelo caminho, se vou ter uma vida desgarrada de luta, se vou encontrar pousio ou se ando à deriva. Eu não sei sequer o que quero ver. Sei que vê-lo, a ele, durante os três meses de tratamento, não é vida. Segurar-lhe os ombros para que vomite digno, carregá-lo nos braços até à cama e dar-lhe religiosamente o café por uma palhinha, cuidar com receio de partir; não, não é vida.
A vida é o que fizer dela. Mas, então...
E se a fizer vezes sem conta?

v

As imagens estão um bocado turvas na minha mente, mas como já te tinha dito, a ideia chegou-me num sonho. Parece surreal, eu sei. No entanto, a maioria das ideias que tenho chegam assim, levemente, em imagens desconexas. Quando sonho assim, relembro-me do porquê de ser como sou. Por que razão me sinto tão fora do circo que são as relações interpessoais e as coisas que todos deveríamos sentir ou deixar de sentir uns pelos outros. Tão fora das convenções sociais que me dizem que não posso olhar demasiado tempo para as pessoas no metro, enquanto as escrevo na minha cabeça, ou ficar apenas especado no café, a apreciar um pássaro que desvenda os caminhos da fome e traz migalhas de volta ao ninho. Sonhos que me dizem, claramente: "M*****, não sei se é errado ou não, mas há algo de diferente a passar-se no teu cérebro. Algo que te promove a empatia, o embaraço, mas também a preguiça e a apatia. O apreço das pequenas coisas, as fotografias mentais, ou até algo tão simples como saberes as pessoas sem que elas te previnam do caos que as governa". 
Estou a divagar. Desculpa.
Passemos ao sonho.
Imagina que sou um vulto. E como vulto, sou tudo e nada. Como vulto, atravesso o ar frio da noite, os corpos das pessoas e sou as suas emoções, o bater desconcertado do seu coração, os passeios escorregadios e os candeeiros que por falta de manutenção estremecem violentamente e reluzem em código morse. Como vulto, avisto uma fachada industrial habitacional, com grossos cabos em metal a revesti-la, num arranha-céus que o futuro construiu. No andar mais alto, uma janela panorâmica, circular, desesperadamente enorme, como se quem habitasse nesse apartamento fosse um eremita privilegiado, e olhasse para os humanos lá em baixo, na sua busca diária por algo que dê sentido às suas pobres vidas.
Aproximo-me a uma velocidade vertiginosa dessa janela, os contornos passam a figuras perceptíveis, e o que vejo é apenas um homem, ar cansado, a acolher a vista. Ele veste um fato preto, de fino corte, e tem as mãos nos bolsos das calças. A camisa é branca, desfraldada, como quem voltou estafado de um dia de trabalho. Ele não dorme uma noite decente desde que se lembra. Atrás dele, uma mulher anda em círculos, completamente lívida de raiva, atirando com pequenos objectos por todo o lado, amontoando roupa numa mala de viagem. Ele nunca olha para trás.
Eu chego à janela, do lado de fora, os olhos desse homem encaram-me. Os lábios rompem o silêncio e ele esboça uma frase: "Se é assim tão mau, vai--".
E sou ele, agora. E páro a frase a meio. 
"Desculpa, não é nada isto."
"Desculpa."
No segundo em que me torno nele, apercebo-me de quem é ela. Da falta que lhe faz. Da maneira como as suas narinas se abrem quando se chateia. Do esgar que antecede uma gargalhada histérica.
E apercebo-me de quem sou. Das 12 horas por dia que passo, no sítio onde as passo, para podermos ter aquele canto para nós. Do quão vazio ele se torna se ela acabar de arrumar aquela mala. E do quão patética seria a minha existência se tivesse terminado aquela frase.

domingo, 28 de fevereiro de 2016

Não se transmite

que me tens na língua como doce de limão.
...
Que só não penso em ti porque não penso em mais ninguém,
O meu tórax fechado e em modo de sobrevivência.

A campainha toca para a idade adulta,
a porta fecha para desafios.

Na minha nuca, bem ao fundo,
o que deve perder-se e não se perde,
o que ainda se recupera e as batalhas perdidas,
a indulgência, a necessidade, 
a criança que me olha,
o fim da minha árvore,
o meu terraço vazio,
oportunidades como estrelas cadentes.

recortes mentais do que era há 10, 5, 3 e 1 ano.

a luta para voltar a juntar palavras como casais.

sábado, 17 de outubro de 2015

Água


Tens - ao mesmo tempo - em ti, a expressão imutável de uma estátua e a sofreguidão de quem, ao meu primeiro toque, reverte para o estado líquido.
Se tiver razão, tocar-te onde me queres será como entrar em água salgada, tornozelos, joelhos...dedos que testam a resistência do tronco. Ou talvez só o ímpeto de testar a temperatura num ritual, para depois te beber de uma vez.
Mas e se em vez disso, preferisse andar sobre ti e fazer de profeta, ou te dividisse ao meio para que toda a pureza da minha alma te atravessasse e visses que parecem quarenta anos de promessas desfeitas e corpos rígidos no meu rasto, infinitas mulheres feitas em pedaços na minha consciência, e todas aquelas que hão de vir depois de ti, num só grito?
Nunca vou estar certo do que fazer, mesmo que te trate como vida, ou só como um elixir doentio do qual sugo vitalidade.
És perigosa, assim. E eu não suporto, não posso suportar alarmes, nem ler sinais de fumo.
Se para cada acção há uma reacção, eu não me posso transformar contigo. Alguns de nós encontram conforto na impossibilidade de desilusão, em já ter visto parasitas a morrer por não quererem mais ceifar do corpo o seu alimento.
Estes não querem o peso da simbiose, nem o segundo de êxtase que se transforma em anos de cicatriz.

Por isso, sempre que passo por ti, peço licença para que nem os tecidos que nos cobrem ganhem o cheiro um do outro e os aromas morram separados, mas cheios, em vez de juntos, amargos e gastos.

sábado, 15 de agosto de 2015

brasão

Reentro em casa do modo habitual, depois de sair com a cadela. Quando olho para trás vejo algo estranho no seu movimento, mas não paro de andar na direcção do teu quarto. Cruzo uma porta entreaberta que revela a luz acesa, e te revela dobrado sobre a cama, os teus olhos noutro sítio do globo, num estupor induzido pelo que te empresta vida para depois retirar. Talvez com aditivos.

Hoje, pela primeira vez na tua presença aberta, pela primeira vez num diálogo que teremos, também eu trago aditivos no sangue. Talvez por isso não se tenha desfeito a minha cabeça ao ver-te prostrado. Talvez nesse segundo tenha compreendido totalmente o fim da minha vida igual a ti. Talvez se tenha abatido sobre mim todo o peso do teu esforço, toda a corda bem envolta no meu pescoço e no teu e no nosso, como se de uma herança hierárquica de irmão mais novo para irmão mais novo  se tratasse, e por fim talvez tenha entendido toda a tua magnanimidade, longe dos áureos dias infantes em que tu eras a imagem do homem que queria ser sem questionar.

Resolvi não entrar em confronto.

A cadela segue-me até ao teu quarto, em patas de lã com borbotos, o tal movimento estranho na sua pata. Tu dizes o que eu acabo de pensar:

"A cadela tem alguma coisa na pata."

Eu respondo:

"É, não é? D****. Deita. Barriga para cima."

Juntos assistimos calmamente à cadela que prontamente se deitou e colocou as quatro patas no ar, à nossa mercê, de barriga para cima. Sem hesitação, deixa-nos retirar o que a incomoda e ambos olhamos estupefactos na direcção um do outro, como se pensássemos, novamente ao mesmo tempo:

"Esta cadela é um espanto. A facilidade com que aquiesce e nos confia. A ausência total de receio da nossa figura, a confiança que tem em nós."

E dizemo-lo um ao outro. E partilhamos um momento como sempre quis, com leveza, com simplicidade. Um momento tão simples e familiar ao mesmo tempo sobre um animal que também nos une num cordão comum. Outra das razões que nos fazem dar importância à presença do outro. O pensamento semelhante que temos e nos mostra que ainda partilhamos algo, nem que seja a sensibilidade de observar, a nossa maneira dramática e ultra sentimental de absorver os momentos e o que nos rodeia, explanada nestes instantes. Enfim, todo o material genético que me constitui confirmar-se. E pela primeira vez em tantos, tantos anos, senti-lo como algo tão feliz.


#374

o dia pode ser doce, cru ou meigo a todos os instantes, que eu sinto a tua falta.
podem belezas com ar natural esventrar janelas de sua casa,
empoleirando-se com ar lisboeta e decidido,
com a ponta de nostalgia espalhada pela cara
e nunca nada parecer tão atraente como sentir a tua falta.

podem anunciar nascimentos nos jornais,
e condensar todos os escorregas e baloiços do universo num só parque,
nem a adolescência escudada dos meus sonhos fez tanta falta.

faz falta que respires na minha presença,
que mereça endeusar-me em ti,
que dos teus lábios se rasgue um piano
e que eu esteja lá para ver.

sexta-feira, 19 de junho de 2015