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sexta-feira, 27 de março de 2015

Videotape

agarro o pulso,
não sinto o pulso,
só a mão está morta.
e o resto,
o que vem atrás da mão,
o sangue que viaja e visita recantos do meu corpo que não conheço,
esse viaja gélido, acordando a minha pele,
escorre braço acima,
até torcer os meus lábios num esgar melancólico irrepetível,
não sei se quereria que se repetisse sequer,
apenas que não vai acontecer.

então, as mãos viajam sozinhas para a minha cabeça,
os dedos,
ásperos contra o meu cabelo,
apertam para eternizar o momento:
"não deixem a sensação escapar,
esta sensação gritante que é pânico,
melancolia e dor, tudo ao mesmo tempo,
misturada com tudo aquilo que não é complexo em levar comprimidos à boca,
em acabar consigo mesma,
comigo mesmo,
tão fácil como partir um ramo podre,
está tudo dentro e ao alcance,
na beleza dos filmes que nos aproximam da completude,
a sensação japonesa e perene de que tudo dura apenas um segundo,
dedos não me falhem agora."

Solto um ruído de cansaço e alívio.
Foi embora...

sábado, 3 de maio de 2014

Susto

Temo a surdez dos meus inimigos porque travo batalhas verbalmente e penso incoerente que lhes doem pelo corpo todo como folhas a arder.
Cravo a minha espada de epopeias suadas como o mar na voz. Breves gotas, persistentes e acutilantes. Doces para dentes feridos. Imune à própria razão.
E, enquanto emudeço de raiva, o pensamento flui em mim, na leveza momentânea de um susto.
Só depois o arrependimento, antes trompetes de parada que me restituem o que sou e tudo o que não fui dantes.

sábado, 15 de março de 2014

A Onze

Só, olhares filóginos no autocarro, quinze minutos, desconforto, jogos, atenção ao pensamento não vá alguém ouvir. Idade de prata, futuro de latão, o sono, traços contínuos em relevo, clube de golfe esbatido de tinta quebrada. Ar, último desvio da íris nas curvas baloiçantes de uma figura, relva com cuidado. Subsolo.

quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

Reikouzo

O lado da vida de quem planta maracujás no jardim é o lado da vida que não vais ter, crescendo no urbano mundo da cor que não muda.
O lado da vida de quem pendura retratos em paredes pintadas de fresco é o lado de quem perde pedaços e os cola à frente do mundo, a dor no afecto não pode ser repetida, melhor é a dor de falhar com a tinta.
Cada braço estendido um olho fechado. Cada copo pago, um número de guardanapo e sorrisos boémios.
Cada mundo de trabalho, uma esfera de impossíveis.
Séries, escritos e mau-olhado. Respiração celular. Paragem de autocarro.

terça-feira, 14 de janeiro de 2014

Qualquer


de que servem as palavras belas?
A descrição de corpos, de sangue e vida pejada nos poetas da cidade em que tudo se vive na falta de ar. Os dias contados pela efemeridade, nostalgia, arrependimento de tinta gasta no papel.

De que serve uma carta que simula o toque e estende a distância e mata imagens?
Um olá, não saias da minha pessoa.

E quando tudo acaba?
Êxito. Foi. Passado.

quarta-feira, 25 de dezembro de 2013

João e Maria

"espero que agora troveje. estou aqui deitado, no meu trono-saco de cama."

O mundo não me pode tocar como toca quando tenho os pés no chão. O dia não começa enquanto a peça não cair, não acaba quando eu quero, não se funde com a miséria, não, não, não, não pode nada contra mim aqui, até tenho coragem para um sorriso, sincero, como quem transforma madeira em meninos de verdade e destila delicadeza pelos poros.

Quero imaginar. Quero música como história "agora eu era um herói", até ser algo melhor "eu já não tinha medo".

Quero tudo o que não deu para ter.


Feliz Natal.

sexta-feira, 1 de novembro de 2013

Picoas

Tive um sonho com uma locomotiva que parava para quem queria entrar, porque o pó e as migalhas também têm o seu orgulho.
Era uma carruagem cheia de corações partidos, olhares esquisitos que queriam a mesma coisa.
Ele disse: "eu não quero passar a viagem calado nos lábios de outra pessoa. Parem de escrever e falem comigo."
E os gritos entraram como percussão através das cordas, as lágrimas no meu lenço não eram minhas, estou entre os meus.
Valeu a pena ser fecundado neste universo estéril.

segunda-feira, 30 de setembro de 2013

Texto

Colecciono momentos e objectos como se me fossem indispensáveis para respirar. Sobretudo momentos. Guardo-os na cabeça, à espera que a vida mos coma. E quero-os assim, não registados, desarrumados, surpreendentes numa noite em que algo os despoleta. Um cérebro desarrumado sabe como dias a café. Sem comer de manhã, dedos ansiosos e ar cortante. É bom, é tudo para mim, essa ideia de que eles sempre voltam. E de que se podem confundir com sonhos, mentindo suavemente à realidade. E se não voltarem, também não sei que existem. Poupa-me um suspiro - talvez uma lágrima - sobre um papel amarrotado.
Recordo-me de um fragmento de imagem. Devia ter uns três anos, e olho para o meu pai, sentado à cabeceira da mesa, ar confiante, cotovelo equilibrado por razões de etiqueta. E um sorriso verdadeiro na cara. Rugas breves, de feitio. Esta figura surge repetitivamente na minha cabeça, como se a maldissesse ou quisesse guardá-la muito perto.
Não sei o que a provoca, sei que é de ferro. Cada vez que penso nela, a nostalgia invade, tecido macio. E provoca uma torrente de outros pedaços que me percorrem, até ao embrião. De pessoas que não vejo, situações caricatas, medo, vergonha, tudo, tudo passa. Ao ponto de não saber se me fez bem esta viagem. Se lembrar é melhor do que estar sempre aqui e agora, realidade gasta, mas palpável, inegável, existente.
Não sei. Mas não as quero perder.