Mostrar mensagens com a etiqueta lá em baixo. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta lá em baixo. Mostrar todas as mensagens

sexta-feira, 20 de março de 2015

cinzeiro II

testa a dois palmos de hábitos cilíndricos ardentes,
e doze cilindros desfeitos de cancro no cinzeiro,
finjo que metade não são meus, mas que podiam ser
e que acalmam a insónia que me prostra em letras feias para ninguém ler.

podes dizer o que quiseres, mas raramente o mundo é mais belo do que no fim de um cigarro,
excepto quando é mais feio porque o vês a arder, absorto
em poemas de dias quentes,
nos dias em que o amor molhava a sala,
ou a tua silhueta formava os contornos aos meus olhos,
os contornos a nunca ultrapassar,
estivesse eu focado
ou a ver-te partir
em desabafos pouco sossegados que a manhã causa, mas silêncio.
A culpa não é tua.

É minha porque não te soube entreter,
ou me dei aos poucos, em tecido feliz que não me cabe,
ou ainda quando escondi a cabeça no lençol para não me veres o sorriso incrédulo.
A culpa não é tua, se acordas ao lado de quem não conheces.

A culpa é de quem te atordoou os sentidos, sabendo a tua droga preferida, fosse ela real ou apenas uma vela no canto do quarto.

sábado, 28 de fevereiro de 2015

conversas moléculares ou a tautologia do que é exprimir-se

eu vejo um cubo
e digo-te que é um cubo,
com os teus braços esvoaçantes procuras as arestas que o limitam,
olhos no céu, de palmas viradas para cima.
E tremes. Tremes o teu mundo contigo, contido
na limitação do que é exprimir-se,
exprimir o sítio onde estás,
que é amarelo e rosa forte ao mesmo tempo,
cores quentes pejadas de parco laço a uni-las.
E não posso dizer que é mentira,
nem que há cinco segundos falávamos do cubo,
senão desabas no infinito
e um grito mudo na tua cabeça coloca o ponto final
da conversa que ainda não começaste.

sábado, 15 de março de 2014

A Onze

Só, olhares filóginos no autocarro, quinze minutos, desconforto, jogos, atenção ao pensamento não vá alguém ouvir. Idade de prata, futuro de latão, o sono, traços contínuos em relevo, clube de golfe esbatido de tinta quebrada. Ar, último desvio da íris nas curvas baloiçantes de uma figura, relva com cuidado. Subsolo.

quarta-feira, 5 de março de 2014

Viagens - 1

Eu cabia sentado num muro, léguas à vista, num daqueles dias onde parece que amanhã é segunda.
Tinha o calor de um prado deitado à minha frente. Areia morta aos meus olhos no fio da distância. Estava sol, mas não dilacerante. Apenas o sol bom de que me recordo noutros dias. O feno soprado pelo vento, quase como se duas estações se unissem. Tinha o cantil de sobrevivência no colo. Sem ser necessário o confronto. Só a calma. Como se em breve fosse acordar e morresse um pouco. Esforçava-me para tentar não escravizar o momento com papel eterno. Está visto que falhei. Tinha de falhar. São pedaços incólumes que se perdem, mas que dignificamos no furto. Perde-se em originalidade, ganha-se no túnel de recordações arrependidas.
Senti que se o mundo fechasse um punho, soltava uma força benévola, como o assobio de alguém que te quer, uma mãe que te dá o pequeno-almoço. O pedaço inconsciente que aldraba a coerência.
Dois corpos não serviam de nada. Foi parte da corda-bamba da solidão desequilibrada no ponto certo. Foi necessário deixar em mim e não em nós.
À minha memória saltam histórias de outros, cariz semelhante, relatos diferentes. Gosto de ter uma.
Acabo-a com sentimentos contraditórios.
Deixa estar.

quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

Reikouzo

O lado da vida de quem planta maracujás no jardim é o lado da vida que não vais ter, crescendo no urbano mundo da cor que não muda.
O lado da vida de quem pendura retratos em paredes pintadas de fresco é o lado de quem perde pedaços e os cola à frente do mundo, a dor no afecto não pode ser repetida, melhor é a dor de falhar com a tinta.
Cada braço estendido um olho fechado. Cada copo pago, um número de guardanapo e sorrisos boémios.
Cada mundo de trabalho, uma esfera de impossíveis.
Séries, escritos e mau-olhado. Respiração celular. Paragem de autocarro.

terça-feira, 14 de janeiro de 2014

hang on to your id

aos dias iguais fora de portas,
um obrigado.
A leveza das obrigações
num mar de diletância.
Objectivos.
Planos.
cafés, cigarros.
Copos
de Água.
Distracção efémera.

domingo, 8 de dezembro de 2013

Bulhosa

São instantes de grandeza, por todos os dias em que o mundo mói nas palavras de Sá Carneiro.
Estendi-lhe nove dígitos, embrulhados num poema.
E dois dedos de conversa, como um beijo de circunstância.

"Detesto os gajos que fazem isto, mas não quero ficar-me pelo Quasi"

Trocadilho espirituoso. Ilusões de confiança.

Umas horas mais tarde, um texto simpático sobre a inexistência de futuro.

Que bom foi ter coragem para não agarrar nada.

quinta-feira, 21 de novembro de 2013

Might be wrong

vamos descer até não restar nada.
saltar, deixar a gravidade provar-se.
mexer o ombro em desconforto,
enfim, vamos ser uma pestana
resvalante
da pálpebra
para a íris.

Estou farto de pensar que não posso ver o desconforto,
e tudo o que dele nasce.
De ver o bom nas palavras pestilentas
amantes que enchem o fundo da fotografia
de uma orfã que conta os grãos de areia.

terça-feira, 8 de outubro de 2013

Blinds closed, four empty corners.

Amorfo.

Deitado
solidão à espera
vela na mesa
cabeça latejante
de dormir.

Acordar
para suplicar
novo sonho.

Catorze horas
em que o nada
é melhor que tudo.

Persianas fechadas
e quatro
cantos
vazios
no escuro
no mundo
na calma
no quarto.

Exijo
hibernação eterna.

domingo, 18 de agosto de 2013

Pool Shark

Flutuo entre páginas rasgadas nos cantos mais sinistros da minha mente, deixando a marca de quem quer muito ter algo para dizer.
Uns dias penso que sim.
Outros, nem por isso.
Reservo para mim tudo aquilo que nunca te expus, como se ao lavar a loiça te surja o "eureka". E desses lábios possa um dia ler as palavras "esquece tudo isso".
Para mim, não há maior prazer que o elixir ardente que desinfecta bocas cuspindo mentiras e palavras de ódio. Deve ser por isso que vacilo entre pessoas como um pêndulo cansado. Porque a minha verdade nunca é a mesma.
De fora ficam todas essas ideias que não se concretizam. Mas tu chegas lá.