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terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

pierrot

Não consigo deixar de imaginar que estou outra vez naquele recanto de uma quinta, suores ansiosos repelem o brilho do sol e a doce brisa, no melhor dia de Agosto.
São códigos que não percebo, esses do toque amargo; não sei o que é deslizar os dedos para além da pureza incauta, não sei, peço desculpa, não quero saber. Não me obrigues. É Agosto, por favor não.
Amarra-me o peso do silêncio. Acabaste e puseste-me os dedos nos lábios. Olhaste-me do mais doce que os monstros conseguem. Doce possessivo. Vergonha nos dedos. Senti-os tremer.
Voltei a casa e tudo soava a asfalto na bicicleta. A ocasional borracha que se debate com o piso. Tempo de deixar estes minutos debaixo de um cobertor.
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domingo, 22 de fevereiro de 2015

smog

Tenho um amigo, na realidade um amigo que por dissabores se tornou relâmpago, que disfarça as loucuras por baixo de nenúfares em flor, ou mais até como pato num lago. Tudo calmo à superfície, enquanto as patas desenvolvem um festival frenético, capaz de separar moléculas e reverter água para hidrogénio.
Ele mente. Copiosa e fantasticamente. Quando outros nele vêem apenas uma sequência aleatória de factos comprovadamente passíveis de rejeição, eu vejo a mente de uma criança que ainda o é, de vívida imaginação e detalhes que trazem lágrimas aos olhos. A sua mãe é professora, contudo não há um livro à vista nas suas estantes em casa. O pai era agente de uma qualquer força armada, mas trabalha num aeroporto em Bruxelas. Este tipo de coisa.
Não o via há dois meses. Não lhe falava longamente há ano e tal.
Hoje redescobri o susto que é crescer desamparado. Tenho medo, mãe. Envolve os teus braços nesta fraca estrutura óssea até quebrar. Tolda-me os sentidos para não me esconder do mundo, e oferece-me a imagem dos adultos que têm de sorrir para que os filhos anseiem o pagamento de impostos.
Deixaste-me em 2007 e nunca esteve tanto frio em casa.


terça-feira, 22 de julho de 2014

um brinde a todos os olhos na rua que cortam como papel.

sexta-feira, 27 de junho de 2014

Silla

São histórias belas, no culto de um pacto sangrento, em que do fraquejar dos dedos se faz a morte floral, pétala a pétala, como a soltar o último grito da primavera. No romper de um abraço.
Ao dobrar a esquina, decoro-te a sombra permitida pelos candeeiros na noite. Nem o vinho, nem o pedaço de alma que te parti morrem hoje.
Mal vejo a hora que deixe outra silhueta ocupar aquele canto poeirento do meu armário. Numa lamela para análise, reparo os demónios no detalhe, sinto os perigos na amostra. Revelam-se inconsequentes.
Sei que vou morrer amarelo, sei disso. Ou a zelar por ti do outro lado da estrada.

segunda-feira, 26 de maio de 2014

Voracidade

Estamos sentados, frente a frente, já quase sem sentido a consumir o amor que temos com deslizes mal-calculados de língua. O veneno não tem de ser construtivo. Olho para a tua boca e só vejo a voracidade com que me destróis e procuro espelhá-la, mesa incluída, com talheres e copos. Uso tudo para me poder defender, porque nós não chegamos àquele debilitado flanco que vocês têm com palavras apenas. Antes em toques que cheiram a juventude. Por outro lado, cada bala vossa é certeira, com o poder de enlouquecer e bloquear os sentidos. Causam o amor-ódio.
Gostava de treinar a forma como digo as coisas, e dessa forma poder dominar o que quero. Apagar aquele milésimo de segundo que revela a minha intenção nas pausas, que mostra o quão desarmado fico nestas conversas-xadrez que constituem o relacionamento humano, constroem química ou matam futuros. Controlo emocional preocupante.
Era só isto.
Tê-lo mudava tudo.

quarta-feira, 7 de maio de 2014

Trova

Sabes que não posso assegurar indiferença face à tua nudez programada. Descrições de linhas de costa em dias azuis-fosco servem-te bem demais para que me apodere delas e lhes force um "nós".
Mas se um dia os teus olhos resvalarem para essa Almada, espero-te, a ti, e ao teu toque que congela esta maré de destruição auto-provocada.
Espero como a estrela cadente espera o silêncio de um desejo que não se partilha.

sábado, 3 de maio de 2014

Incompleto 2

Na mente do homem onde tudo o que existe é raiva, as decisões tomam-se abrupta e decisivamente. Para talvez depois as renegar.
A primeira coisa a notar é que o conheço mas nem sempre existe em mim, só nos dias em que os gritos são mentais e galopam.
Quem o conhece tende a arrepender-se, porque é um homem que nada tem para dar. E quando não se dá, não se pode ser.

Susto

Temo a surdez dos meus inimigos porque travo batalhas verbalmente e penso incoerente que lhes doem pelo corpo todo como folhas a arder.
Cravo a minha espada de epopeias suadas como o mar na voz. Breves gotas, persistentes e acutilantes. Doces para dentes feridos. Imune à própria razão.
E, enquanto emudeço de raiva, o pensamento flui em mim, na leveza momentânea de um susto.
Só depois o arrependimento, antes trompetes de parada que me restituem o que sou e tudo o que não fui dantes.

sexta-feira, 2 de maio de 2014

Vestido

A menina deste blog começou uma caixa de palavras para o mês de Maio.


"É exactamente assim que se transforma um verbo em reacções".
Ficaste pálida e olhaste para o teu vestido. Percebi que percebeste.
E desculpem-me se esta história não passa de um telegrama, mas não acredito em fábulas que não são curtas.

sábado, 15 de março de 2014

A Onze

Só, olhares filóginos no autocarro, quinze minutos, desconforto, jogos, atenção ao pensamento não vá alguém ouvir. Idade de prata, futuro de latão, o sono, traços contínuos em relevo, clube de golfe esbatido de tinta quebrada. Ar, último desvio da íris nas curvas baloiçantes de uma figura, relva com cuidado. Subsolo.

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

João

És vida nos meus braços e vejo-te crescer.
Dos carros aos lápis de cera. No primeiro caracter.
Até pisar as folhas de Outono.

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

Oceano




No desconforto do meu leito baloiçante, umas palavras, para acalmar a imensidão azul e a lua fria.
Ondulo na pureza da descoberta.
Amanhã posso morrer às mãos de uma língua que não conheço, e onde está a calma nisso?
A ideia de casa é nostálgica. Comigo vinte sobreviventes que pensam o mesmo. Quase todos deixaram a lucidez na costa anterior. No mar, qualquer mulher é a casa. Não te orgulhes, penso em todas no breu da noite.
Não minto.
Amanhã continuo o trabalho da Coroa que não nos resgata.

quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

Moon





Dizendo como nada aquilo que fazia, o mais certo seria que provava whiskeys em Lisboa, isso não lhe tirava ninguém.
Faltava-lhe uma mão para por à volta de uma mulher prometida,
A pertença. Lar-edredão.
Talvez noites de íntima companhia,
lado feio na boca de preconceituosos, no entanto
real.
Palavras de e para algúém,
ausência de copo-reflexo,
música de dias bons,
música.
Tanto lhe faltava,
não a cevada,
uma cintura,
mas nunca a cevada,
nunca o cotovelo,
nunca a base,
nunca os balcões,
uma cintura.

quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

Borboletas

Para ele, só existiam dois tipos de pessoas no mundo: os que tinham ouvido o “Samba pa Ti”, e os que não o tinham feito.

Ele admirava simples tons, pele aveludada, descia nos dedos do mundo para sacos secos de feijão. Perdia o fôlego com amores no olhar, pensava “à beleza da mulher”! Quando se enfrascava nos bares de Lisboa. Carregava o som da música ao vivo em si. Os poros antecipavam todas as sensações, beijos sonoros, carne trocada.

Era assim.
não tem de ser como se quer.
é só como se é...

terça-feira, 14 de janeiro de 2014

Qualquer


de que servem as palavras belas?
A descrição de corpos, de sangue e vida pejada nos poetas da cidade em que tudo se vive na falta de ar. Os dias contados pela efemeridade, nostalgia, arrependimento de tinta gasta no papel.

De que serve uma carta que simula o toque e estende a distância e mata imagens?
Um olá, não saias da minha pessoa.

E quando tudo acaba?
Êxito. Foi. Passado.

hang on to your id

aos dias iguais fora de portas,
um obrigado.
A leveza das obrigações
num mar de diletância.
Objectivos.
Planos.
cafés, cigarros.
Copos
de Água.
Distracção efémera.

quarta-feira, 25 de dezembro de 2013

João e Maria

"espero que agora troveje. estou aqui deitado, no meu trono-saco de cama."

O mundo não me pode tocar como toca quando tenho os pés no chão. O dia não começa enquanto a peça não cair, não acaba quando eu quero, não se funde com a miséria, não, não, não, não pode nada contra mim aqui, até tenho coragem para um sorriso, sincero, como quem transforma madeira em meninos de verdade e destila delicadeza pelos poros.

Quero imaginar. Quero música como história "agora eu era um herói", até ser algo melhor "eu já não tinha medo".

Quero tudo o que não deu para ter.


Feliz Natal.

quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

Lírio, Canivete, Alma Para ir à Escola.

Consumimos frases de auto-ajuda como se o abjecto morasse nos nossos quartos.
Monstros no armário.
Amor debaixo da cama.
Amor simples, infante.
Amor como só se pode receber de si mesmo.
Frases de um teclado anónimo.
Alcunhas de merda, planos diferentes.
Misticismo no plural. Piadas sexuais que não chegam ao teu peito.
Misticismo no singular.
Morte nos dias leves.
Sorrisos no peso.
Todos somos facultativos.
Planos de merda.

domingo, 8 de dezembro de 2013

Bulhosa

São instantes de grandeza, por todos os dias em que o mundo mói nas palavras de Sá Carneiro.
Estendi-lhe nove dígitos, embrulhados num poema.
E dois dedos de conversa, como um beijo de circunstância.

"Detesto os gajos que fazem isto, mas não quero ficar-me pelo Quasi"

Trocadilho espirituoso. Ilusões de confiança.

Umas horas mais tarde, um texto simpático sobre a inexistência de futuro.

Que bom foi ter coragem para não agarrar nada.

quinta-feira, 21 de novembro de 2013

Might be wrong

vamos descer até não restar nada.
saltar, deixar a gravidade provar-se.
mexer o ombro em desconforto,
enfim, vamos ser uma pestana
resvalante
da pálpebra
para a íris.

Estou farto de pensar que não posso ver o desconforto,
e tudo o que dele nasce.
De ver o bom nas palavras pestilentas
amantes que enchem o fundo da fotografia
de uma orfã que conta os grãos de areia.